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O terror em ritmo de alucinações

 Nem sempre é possível encontrar respostas sobre o que um determinado filme quis nos dizer. Às vezes, precisamos ir além de simplesmente perguntar. É preciso espiar pela fechadura. Ver além das aparências.  Investigar. Só que esta atitude exige de nós alguns esforços que nem sempre estamos dispostos a encarar. Afinal, por que temos que entender tudo que se passa diante dos nossos olhos? Nas telas? Por que não apenas assistir ao filme, sem compromisso? Aí vem a pergunta que queremos fazer. É possível manter esta atitude de mero espectador passivo diante dos filmes de Ingmar Bergman? Não. Pelo contrário. Vamos, sim, ter que nos levantar da poltrona e nos colocar numa atitude investigativa. De inquietação. Esta é a proposta artística do diretor sueco. Uma exigência, quase. E é com este ânimo que devemos assistir a mais este filme de Bergman – que também assina o roteiro -, o quase inescrutável A HORA DO LOBO (83’), Suécia (1968). Se Bergman embaralha tudo, tira da ordem e camufla a realidade, ele o faz com o objetivo de criar abismos para que fiquemos tentados a mergulhar neles. Será que vale a pena esse mergulho? Entendemos que sim. O máximo que pode acontecer é continuarmos sem as respostas.

Johan Borg é um pintor introspectivo, com algum sucesso, que vai viver com a esposa, Alma, numa das ilhas de Frísias, na Suécia. O isolamento consentido, a penumbra que amedronta e a claridade que ofusca vão expondo a mente perturbada de Johan, colocando-o em posição de crise em relação à sua esposa. Johan, com sua mente errante, deixa Alma assustada, sem entender o que realmente está acontecendo com o marido. Escolheram isolarem-se na ilha para serem felizes. No entanto, seres alucinatórios, feito convidados indesejáveis, vão ocupando seus lugares à mesa, povoando a mente de Johan na confusa mistura entre realidade e delírio.

Vale a pena prestar atenção, ainda no começo do filme, por volta do décimo minuto, na cena em que Johan mostra à esposa seus desenhos mais secretos. O que nos é descrito por Johan, já que os desenhos não nos são mostrados, são conteúdos alucinatórios, criados por uma mente em visível estado de deterioração. E estas projeções serão confirmadas mais adiante, no formato de realidade, quando da visita de Johan e Alma ao castelo do Barão Von Merkens (Erland Josephson). Mas, antes de tudo, precisamos decidir uma coisa. E aqui reside a importância da cena destacada acima. A visita ao castelo realmente existiu? Há, de fato, um castelo na ilha? Habitado pelos fantasmagóricos Von Merkens? Esta, pois, é a questão básica do filme. Afinal, o que é realidade e o que não é realidade?

Uma das técnicas que Bergman usa para nos confundir é a não linearidade da narrativa. Ora, o que não é linear fragiliza o racional. Oferece espaços para que a dúvida tome conta da nossa percepção. Mas este, cremos, é exatamente o objetivo de Bergman. Colocar o espectador diante de sensações primitivas, frutos de vivências passadas que moldam nossa forma de sentir e reagir ao cotidiano. Não à toa, se aproximarmos a lupa, vamos perceber que há muito do Bergman menino neste filme. A impressão que nos fica é que Bergman escreveu o roteiro e concebeu o filme dentro de um armário, símbolo do terror do menino Bergman em seu reduto de castigos e punições. Os espantalhos que terrificavam o menino Ingmar são agora reavivados, em sublimação artística, num dos seus filmes mais autobiográficos. É o Bergman artista acolhendo o menino Ingmar.

E o Bergman artista que quer nos confundir utiliza técnicas de filme de terror para conseguir os efeitos estéticos que deseja para expressar suas angústias pessoais.  Mas nada de querer assustar, muito menos aterrorizar. Apenas evidenciar. O que interessa é impactar o espectador para que ele se deixe aprofundar no universo psíquico conturbado de Johan. Os olhares são silenciosos, as vozes, caladas, e os passos cadenciados nos levam diretamente ao medo. Há representações de personagens levemente excessivas, portanto, misteriosamente teatrais. A maquiagem é fria, o sorriso é enigmático e a fotografia de Sven Nykvist, amedrontadora. E os movimentos de câmera, lentos, torturantes. Foi mais um passo nas aventuras artísticas de Bergman que, como ninguém, se dispõe a usar de qual seja a técnica e a estética para atingir seu objetivo maior.
Fazer do cinema, arte.

E aqui retornamos ao ponto central da nossa discussão. Se é possível compreender o que Bergman quis nos dizer com A Hora do Lobo. O foco da estrutura alucinatória de Johan, sabemos, gira em torno de sua antiga amante, Verônica Vogler, a quem sua alma perturbada está presa. É em torno deste núcleo alucinatório que gira a narrativa. Neste caso, a saída é definirmos várias sinopses que nos leve a entender, em parte, o filme. Depende de aceitarmos esta ou aquela pista psicológica. Vamos dizer que Verônica Vogler era uma prostituta por quem Johan se apaixonara doentiamente. E que viria a ser assassinada por motivos de ciúmes entre amantes. E vamos dizer também que os disparos, três, um deles fatal, tenham sido feitos por Johan, o que veio a causar sua desintegração psíquica. Outra sinopse. A morte do menino pode simbolizar o desaparecimento do menino Bergman. A própria Verônica Vogler pode surgir como a alegoria do anão dentro do armário, que tanto terrificara Bergman, como ele mesmo relata em sua biografia. Afinal, o armário era o ninho alucinatório dos seus castigos. Enfim. O espectador poderá ele próprio, munido de suas percepções, fazer a própria sinopse. Pode ser um caminho tortuoso, mas que valerá a pena trilhar. Principalmente se tivermos em mente que, em se tratando de Bergman, nada é assim tão definitivo. O que nos dá a possibilidade de arriscar.

Em suma, precisamos nos dar conta de que a razão nem sempre precisa ocupar todos os espaços do cotidiano. O que é inexplicável também é algo que pode ser apenas sentido, portanto, apreciado. Mas, lógico, para tudo existe uma tentativa de compreensão. Então, façamos o seguinte. Não vamos ficar passivos. Primeiro, vamos sentir, deixar nossas sensações nos dominar. Depois, sim, vamos tentar elucidar os significados construídos por Bergman. Muitas são as pistas narrativas que A Hora do Lobo nos oferece, algumas até citadas acima. A questão é querer procurá-las ou não. Mas todos vão prometer uma coisa. Aceitar a ideia de que os monstros que habitam em nós são invisíveis. Por que, se visíveis, já teríamos tido a oportunidade de eliminá-los. E não precisaríamos passar a vida achando que tudo vai ser compreendido, as nossas dores e os nossos pesadelos. Engano. Continuaremos sempre a esperar pela hora do lobo, que é aquele exato momento entre a madrugada e o amanhecer, que é quando o lobo vai aparecer para nos livrar da nossa loucura. Só que o lobo não existe. Ele é apenas uma lenda.

Antônio Roberto Gerin

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O Pai é uma peça de Johan August Strindberg, escrita em 1887, e é uma das peças mais importantes do multiartista sueco que, além de escrever prosa e teatro, também se dedicava à fotografia e à pintura. Strindberg é um dos escritores mais importantes da Escandinávia, e suas obras influenciaram decisivamente, não só na sua região como no mundo todo, a literatura e o teatro do início do século XX. No período em que a peça O Pai foi escrita, o dramaturgo passava por intensa crise no seu primeiro casamento, e carregava angustiosamente a dúvida da paternidade. E este foi o tema que Strindberg escolheu para explodir a tragédia do personagem principal da peça, o Capitão Adolf, que vê sua sanidade mental minada, também, pela dúvida da paternidade. De certa forma, Strindberg nos mostra uma obra confessional, onde ele tenta buscar, na sua dramaturgia, dissecar toda a dor pela qual ele mesmo estava passando. Mesmo ele se considerando contrário ao conservadorismo, suas feridas emocionais, causadas pelas relações com as mulheres, não deixaram de transpassar um tom misógino nas suas peças. Contudo, isso não torna suas obras pequenas, pelo contrário, as engrandece com a sua coragem de expor suas dores de forma tão intensa. Afinal, das relações humanas, qual é aquela que não deixa marcas? As de Strindberg estão carregadas do ardor das suas fragilidades e feridas emocionais.

Na primeira cena da peça, o Capitão e o Pastor, seu cunhado, conversam sobre o filho de uma das criadas da casa. Nöjd, um dos funcionários do Capitão, seria o suposto pai, mas como na época a ciência ainda não tinha os testes de DNA, não havia como provar quem, de fato, eram os pais das crianças que nasciam. Deste modo, só as mães é que poderiam saber. Assim, nessa pequena cena, Strindberg já vaticina a tragédia que espera pelo Capitão.

Ao longo da peça, nosso personagem vai se queixando da quantidade de mulheres em sua casa, e como lhe é custoso lidar com todas elas que, cada uma a sua maneira, querem conduzir a educação de Bertha, sua filha. A chegada do novo médico da família, que a princípio é uma esperança para o Capitão, acaba por se tornar uma decepção, já que Laura, sua esposa, trata de querer convencer o médico de que seu marido está padecendo e que este padecimento está comprometendo sua saúde mental. Os embates entre Laura e o Capitão vão se tornando mais tensos a partir daí, até que ela lança a semente da dúvida sobre a paternidade do marido. É neste momento que o Capitão abraça sua tragédia e afunda de vez numa espécie de delírio persecutório, do qual não parece haver saída. É o triunfo da esposa. Ela finalmente se vê livre do marido e poderá, agora, cuidar da educação da filha como bem entender.

Como se pode notar, a peça quase que retrata o momento pelo qual Strindberg estava passando. Suas dores em relação à sua esposa, a dúvida sobre a real paternidade dos seus filhos e seu enorme sentimento de impotência, causado por esses conflitos, aparecem sintetizados na personagem do Capitão. Esse aspecto nebuloso de sua vida, presente na peça, traz para a obra uma característica muito próxima das tragédias gregas, onde uma espécie de mal sobrenatural está prestes a acontecer. É a arte se mostrando como possibilidade de redenção do artista, ou mesmo como seu salva-vidas no turbilhão de seus conflitos humanos. É por esta razão, caro leitor, que a arte é tão importante. Para salvar-nos de nós mesmos.

Alex Ribeiro Lopes

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