Publicado em Categorias Cinema, Resenhas

Os amores que levam à solidão

ENTRE DOIS AMORES (160’), Estados Unidos (1985), é um clássico hollywoodiano dirigido por Sydney Pollack (1934-2008). Essa aclamada produção ganhou alguns dos principais prêmios do cinema mundial naquele ano de 1985, dentre eles o cobiçado Oscar de Melhor Filme. O roteiro de Entre Dois Amores é baseado no livro autobiográfico “Out of Africa”, no qual a escritora dinamarquesa Karen Blixen (1885-1962), mais conhecida pelo seu famoso conto “A Festa de Babette”, relata o período em que morou numa fazenda no Quênia, convivendo com os nativos da região e com os neocolonizadores, britânicos em sua maioria. O enredo começa em 1913, quando Karen Dinesen (Meryl Streep, deslumbrante), uma mulher rica e solteira, pede a um amigo, o bon vivant Barão Bror Blixen (Klaus Maria Brandauer), que se case com ela. Trata-se de um casamento de conveniência entre dois amigos. Ela, para evitar a fama de solteirona, e ele, um nobre falido, para voltar a ter segurança financeira. Juntos, eles se mudam para a então África Oriental Britânica, atual Quênia, onde se casam. Para surpresa de Karen, ela rapidamente se descobre apaixonada por esse novo mundo, tão diferente de sua fria Dinamarca. Em meio aos arrogantes e preconceituosos neocolonizadores que dominam o Quênia, Karen e Bror conhecem o simpático e misterioso Denys Finch Hatton (Robert Redford), um caçador inglês com quem desenvolvem uma estreita amizade. Mas nem tudo são flores na nova vida da recém-intitulada baronesa.

Karen e Bror haviam se mudado para o Quênia para investirem em criação de gado. No entanto, Bror, sem que Karen soubesse, havia comprado uma fazenda cafeicultora próxima às Colinas de Ngong, a qual ele não tinha a menor intenção de ajudar a administrar. Em vez disso, ele esbanja o dinheiro de Karen em caçadas pela savana africana, ausentando-se por meses a fio, deixando a esposa com a responsabilidade de cuidar sozinha da problemática fazenda. Para piorar, o investimento no café demora a dar frutos. E como se isso não bastasse, Bror continua com suas aventuras extraconjugais, sem a menor preocupação de escondê-las. A triste consequência. Bror transmite sífilis para Karen, que é obrigada a retornar para a Dinamarca, para se tratar.

Após o fim da Primeira Guerra Mundial, Karen retorna ao Quênia e divorcia-se de Bror. É quando então Denys passa a ter um papel mais importante em sua vida. O romance entre os dois é construído com calma, sem atropelos, até que os conflitos começam a emergir. Apesar do amor verdadeiro que surge entre os dois, Karen e Denys não conseguem compreender a natureza um do outro. Karen deseja formalizar sua relação com Denys, mas ele se mostra tão indomável quanto a África selvagem. Denys deseja apenas ser feliz com ela, um dia de cada vez, identificando-se dessa forma com o povo masai, que vive somente o presente, sem pensar no futuro.

Entre Dois Amores é narrado pela própria Karen, no caso, Meryl Streep, com um caprichado sotaque dinamarquês. Sua atuação, sensível e forte ao mesmo tempo, se sobressai diante das demais. Destaque também para Robert Redford, que construiu um charmoso Denys, e para o ator austríaco Klaus Maria Brandauer, com seu irreverente e sincero Barão Bror Blixen.

Temos aqui um filme de despedidas, onde a solidão e a espera dão a tônica da história. A certa altura, Karen diz: “É um sentimento estranho, a despedida. Há tanta inveja nisso. Os homens saem para serem testados, por coragem. E se nós somos testadas, é por paciência, por viver sem, por quão bem podemos suportar a solidão.”. E esperar pacientemente é a sina de Karen. Esperar por Bror, que se despede para suas caçadas e para se alistar na Primeira Guerra Mundial. Esperar por Denys, que se despede para vivenciar sua liberdade. O próprio título do filme em inglês, “Out of Africa”, alude à tristeza de Karen de saber que estará para sempre “fora da África”, a terra que aprendeu a amar, mas na qual não pôde mais permanecer, já que todo o seu investimento material e emocional mostraram-se fracassados.

É interessante ver como Karen, ao longo do filme, vai se transformando numa mulher forte, corajosa e nobre. Ao contrário da maioria dos neocolonizadores que habitam o Quênia, que só estão ali para explorar as riquezas locais, Karen sente profunda empatia pelos nativos. Ela canaliza seu amor maternal para o povo desse novo mundo, chegando mesmo a construir, em sua propriedade, uma escola para as crianças locais.

Um dos pontos altos de Entre Dois Amores é sua arrebatadora trilha sonora. Ao som das grandiosas músicas compostas pelo premiado compositor inglês John Barry (1933-2011), a história é contada sem pressa, com cenas contemplativas, nas quais a África é tratada como um personagem da trama. Na sequência mais bonita do filme, e uma das mais icônicas da história do cinema, vemos Karen e Denys sobrevoando a beleza selvagem da África no avião biplano de Denys. É de lavar a alma!

Toda a magia das deslumbrantes imagens da savana africana, captadas com requinte pela competente equipe de fotografia, contribui para fazer o contraponto entre a grandiosidade da natureza e a pequenez do ser humano, perdido em sua imensidão.

Entre Dois Amores é um filme belíssimo de se ver e de se ouvir. A direção segura de Sydney Pollack, aliada a uma história cativante, com diálogos poéticos e inteligentes, atuações memoráveis, uma fotografia de encher os olhos e perfeita reconstituição de época, fazem de Entre Dois Amores um épico de primeira grandeza que proporciona uma agradável experiência estética a todos aqueles que o assistem. E mais que isso! Um filme que, com poesia e elegância, nos faz refletir sobre a solidão inerente à natureza humana e sobre como é necessário percorrermos o árduo caminho para dentro de nós mesmos, para só então nos voltarmos para fora, se não mais lúcidos, ao menos mais fortalecidos para transpormos os obstáculos e acolhermos as surpresas que a vida irá nos oferecer.

Leivison Silva Oliveira

Vale muito a pena

(Disponível em DVD)

Resenha de filmes, às sextas-feiras, às 12h. Acompanhe!

Publicado em Categorias Poesia

Em meio à noite fria
A solidão
Se faz presente
A saudade é companhia
E minha falta
É você

Você
Que há tempos
Não vejo
Não toco
E não beijo

Ah, teus carinhos
Os olhares
As palavras doces
Trocadas
Promessas de uma vida
Simples
Repleta de amor

O valor
Que não te dei
Os elogios e a gratidão
Não demonstrados
Uma vida perdida
Tantas coisas
Que não te disse
Meu amor

Só agora
Agora que não te posso
Agora que não te tenho
Agora…
Agora que o frio
Frio que me atormenta

Me diz que te quero

Mas
Te perdi
Pra saudade
Solidão
E para o frio
Gélido
Que me atormenta.

Publicado em Categorias Poesia

Menino atrevido, homem sofrido
Se arrisca a vencer as barreiras da vida

Menino atrevido, homem sofrido
Que barreira tão forte, porém invisível

Menino atrevido, homem sofrido
Que dor em tentar, barreiras quebrar

Menino atrevido, homem sofrido
Difícil é crer que mudança haverá

Menino atrevido, homem sofrido
Sentado na calçada, lágrima a pingar

Menino atrevido, homem sofrido
Pisão que vem de cima, rasteira por baixo

Menino atrevido, homem sofrido
Não teime, fique no seu lugar.

Alex Ribeiro Lopes