Ájax

Por Alex Ribeiro

Ájax é uma tragédia grega de Sófocles, escrita por volta de 445 a.C. Provavelmente é a sua peça mais antiga, das que chegaram até os dias de hoje, sobrevivendo ao tempo. Sófocles, que escreveria outras grandes e conhecidíssimas tragédias, como Antígona e Édipo Rei, traz em Ájax parte da história desse grande guerreiro que lutou ao lado dos gregos, na guerra de Troia.  Nosso protagonista era o comandante das tropas enviadas por Salamina, onde era príncipe, filho do Rei Télamon. Era o segundo melhor guerreiro grego na guerra, ficando atrás apenas de Aquiles. Por isso, nosso herói era conhecido como Ájax, o Grande, e, também, Ájax Telamônico. Tal importância é uma característica necessária para que um personagem figure nas tragédias gregas daquele tempo. Portanto, somente pessoas que se destacavam da sociedade tinham suas histórias relatadas, para que o processo de catarse da tragédia atingisse o seu objetivo. Apesar disso, o Ájax de Sófocles foge um pouco do modelo de tragédia que Aristóteles descreveu na sua Poética. Parece começar depois da falha trágica, ação que culmina nos sofrimentos do herói, que normalmente se dão no início da tragédia. Mesmo assim, Ájax tem grande valor histórico, pois também contribui para que possamos entender o momento de transição pelo qual passava a Grécia naqueles anos. O crescimento do pensamento racional, a efervescência dos filósofos, o distanciamento do teocentrismo e outras características que fundariam o início do “milagre grego” já apareceriam em Ájax e em seu desfecho trágico.

Antes que a tragédia comece, é importante que se saiba os acontecidos recentes da guerra de Troia. Aquiles havia sido derrotado por Páris, e como era tradicional entre os gregos, os guerreiros mais fortes disputariam as armaduras do herói morto. Acontece que, após uma batalha de oratória entre Ájax e Ulisses, os juízes acabam por dar a vitória ao segundo, deixando nosso protagonista tomado de ira. Era o primeiro sinal dos novos tempos democráticos, onde a maioria decidiria pelo que fosse melhor para a pólis. Pelo direito aristocrático, anterior à democracia grega, em caso de morte, as armas seriam entregues, naturalmente, ao segundo melhor guerreiro, nesse caso, Ájax.

Ájax se vê injustiçado e quer fazer vingança aos dois reis átridas, Agamenon e Menelau, por induzirem sua derrota, e ao próprio Ulisses. Nesse momento, ele é castigado pela deusa Atena, que, tendo sido rejeitada pelo herói antes da batalha, vê agora uma forma de se vingar dele. Ájax sai na caçada dos seus inimigos, mas Atena cega o seu discernimento, e o herói ataca reses de gado pensando serem os átridas, e os leva para dentro de sua tenda para torturá-los até a morte. Atena chama Ulisses à tenda de Ájax, para que ele veja no que resultou a loucura do herói. Ulisses assiste a tudo com terror. Após presenciar a loucura do seu oponente, ele se retira.

Passado o momento de insanidade, tendo à porta da sua tenda o coro, e sua mulher, Têcmessa, Ájax se vê profundamente humilhado. Toda a sua glória e boa fama agora se tornaram motivo de riso e vergonha, entre os seus amigos e inimigos. A dor que carrega é imensa, e suas palavras são uma explosão de angústia e desolamento. Ele está decidido a abrir mão de tudo, o que deixa os seus amigos em pavor, visto que, sem a sua proteção, sua mulher e filho ficariam à mercê dos átridas. Ájax então clama pela presença do seu irmão, Teucro, aquele que poderia lhe dar um amparo e cuidar da sua família.

Enquanto a chegada de Teucro não acontece, Ájax resolve se retirar para um lugar desabitado, onde pretende purificar sua alma da sua insanidade e enterrar suas armas. Mas a maldição da deusa ainda não estava de todo curada e Ájax se joga sobre sua espada enterrada no chão, com a lâmina para cima. É descoberto pela sua esposa e, em seguida, pelo irmão. Tarde demais.

Agora uma nova parte da tragédia começa. Por ter Ájax tentado assassiná-los, os reis átridas, Agamenon e Menelau, querem deixá-lo insepulto. É a mesma temática que apareceria em outra tragédia de Sófocles, Antígona. Teucro, então, disputa, em palavras, com os reis, mostrando também as injustiças que cometeram com o príncipe de Salamina. O desfecho só é alcançado quando Ulisses media o debate e convence Agamenon a permitir o rito fúnebre. De inimigo, Ulisses passa a ser o ponto de equilíbrio entre a vontade do homem, a de não deixar que se cumpra o funeral, e a vontade divina, a de não deixar corpo nenhum insepulto, tradição religiosa das mais importantes da Grécia daquele tempo.

Ájax hoje pode nos trazer inúmeras reflexões. Mérito, justiça, política… São muitos os possíveis caminhos que ele dialoga conosco. Mas, além dos desdobramentos sociais que toda obra de teatro traz, seja como questionamento, seja como retrato e reflexo do seu tempo, a obra teatral também nos revela profundezas e sutilezas do ser humano. O que significou para o nosso herói telamônico ter tudo em que acreditou e por que lutou sendo transformado em ruínas em tão poucos dias? Aquilo que o fazia se ver como era, um honrado e grandioso guerreiro, o segundo maior de seu tempo, grande vencedor, vê-se agora desmoronar diante dele. Seria um caso de vaidade e orgulho ferido? Pode ser uma hipótese relevante. Mas ficamos aqui com o homem que perde todo o referencial de si mesmo. Afinal, quem era ele além do grande guerreiro de Salamina? Para que vivera ele, se não para os feitos que agora passaram a ser insignificantes? Ájax deixa a vida quando não mais a vê. De herói, se vê um homem sem destino nem razão. É o desespero da aniquilação de sua identidade. É assim que muitos, em sofrimento, hoje, sucumbem à depressão e a ideias suicidas. Por isso, caro leitor, que o teatro é, além de um retrato humano, uma projeção da nossa alma.

Autor: Alex Ribeiro

Ator da Cia de Teatro Assisto Porque Gosto, psicólogo, poeta e cantor.

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