Publicado em Categorias Resenhas, Teatro

Esquete teatral de Antônio Roberto Gerin, A Mulher do Marido foi escrito em meados do ano de 2016, e é o sétimo texto do dramaturgo neste formato,  que também pode ser chamado de cena curta. Os esquetes teatrais de Gerin tem como característica se constituírem de um recorte do cotidiano dos seus personagens, que rapidamente revelam ao público e aos leitores situações diversas, desde o riso absurdo à apreensão de um conflito dramático. Muita das vezes, os personagens apenas continuam suas vidas como se aquele trecho cênico não passasse de um mero fato cotidiano em suas rotinas. Assim também acontece com o casal de A Mulher do Marido, que vem trazer ao palco situações inusitadas que acabam por se tornarem pretexto para revelar quem são esses dois personagens, que se intercalam entre o amor e o ódio que sentem um pelo outro.

Após ter sido abandonada pelo noivo, Alberto, que se casa com sua melhor amiga, Cândida vê agora seu desejo de vingança realizado. A ex-amiga Verônica trai Alberto, que descobre a traição e, após muita pancadaria, pede a separação. Cândida, ao telefone, feliz, manda seu atual marido, Cornélio, por quem nutre profundo desprezo, comprar duas garrafas de vinho para comemorarem a notícia.

A partir disso começam a se revelar quem são os dois personagens. Uma Cândida que destila todo seu ódio por Verônica,  e que acaba descontando suas frustrações no marido, e um Cornélio completamente submisso aos desejos de sua mulher. Um casal que se complementa em suas fragilidades imersas em mágoas e mentiras. Um prato cheio para o conflito. O amor resistirá a tanta dor? Mas, afinal, é amor isso que une Cândida e Cornélio?

A Mulher do Marido vem trazer aos palcos, com humor ácido, o poder da mágoa, e como podem ser tóxicas algumas relações de casal e, mesmo, de amizade. Enquanto Cândida sonha com o namorado perdido, Cornélio parece assistir a tudo passivamente. Não teria ele nenhum segredo a esconder? É dessa forma que Antônio Roberto Gerin brinca com seus personagens, revelando suas dores e segredos, com a pitada do bom humor que é o tempero ideal para dar leveza ao esquete. Afinal, caro leitor, com nossos segredos revelados, o que nos resta além das lágrimas? Rir.

Alex Ribeiro

A Mulher do Marido faz parte do espetáculo ATÉ QUE O AMOR NOS SEPARE, que estreia dia 8 de fevereiro de 2019, no Teatro Goldoni. Não perca!

Publicado em Categorias Poesia
O dia!
 
A pequena bailarina
Aquela de que todos falaram
Dias atrás repousou sobre mim
Os seus delicados olhos
 
O seu lábio foi tornando-se riso
Tão meigo, sincero e doce
Que num instinto arrebatador
Me vi sorrindo de volta
 
Mas minha boca perdeu-se das palavras
Meu rosto desajeitado denunciou
A timidez desse pobre homem que sou
 
Lá ela continua com os gestos suaves
E com os músculos rígidos
Na bruteza de sua dócil arte de encantar
 
Uma espécie de dama sublime
Um típico vagabundo arruaceiro
Que casal improvável e indizível
Dançando a melodia do desejo
 
Desejo, caros amigos,
Não respeita convenção social
Nem o ritmo da burocracia atual
Dos romances mornos e adolescentes
 
Parece ter origem noutros tempos
Onde o vagabundo, o poeta,
Era, de certo, o amante
Da primeira dama dos palcos
 
Fez-se noite!
 
No bar vai uma balada quente
No peito lava aguardente
Festa, brinde, gritos e urras
O poeta comanda a festa absorto
 
Ao canto, tímida, ela assiste
Aquele homem de bigode fino
Que além de morar no desejo dela
Entra no sentimento, num desaforo
 
Estopim!
Três ritmadas batidas!
 
Um riso que vai perdendo tônus
Um círculo se abre na multidão
É vermelha a cor da cena
Um homem está no chão
A música interrompida
O último verso não tem desfecho
O vagabundo, o herói,
É o poeta que morre no anonimato
Da sua última poesia
 
Uma mulher caminha delicada
Mas suas pernas tremem
Tamanha a emoção
Suas mãos se seguram quentes
Tamanho desejo, dor, e convicção
 
Não hei de entregar-me nunca
A um amor sem classe
Prefiro a tua morte, poeta,
A perder-me de desejo em teus braços.
 
Ah, aquele riso delicado…
Que convite inesperado
Pra esse encontro de desejo letal
 
Querida, saiba
Que a cada amor sufocado
Morre um poeta…
E um pedaço de nós.
 
Alex Ribeiro
Publicado em Categorias Resenhas, Teatro

Pedreira das Almas é uma das peças mais importantes de Jorge Andrade que, ao lado de A Moratória e Veredas da Salvação, forma uma trilogia que esboça, sem compromisso histórico, o quadro social e político brasileiro de diversos períodos da nossa breve história. Jorge Andrade explora, com mãos firmes, os laços e lutas que foram constituindo o arquétipo do povo brasileiro e que, até os dias de hoje, influencia o nosso modo de ser nos solos dessa pátria mãe nada gentil. Essa forte característica dos seus textos fez com que nosso dramaturgo despontasse na dramaturgia paulista e, também, na dramaturgia nacional, fazendo-o manter-se em atividade até a década de 1980. O teatro paulista daquele tempo passava a ganhar as primeiras formas de um teatro socialmente crítico, e os dramaturgos que ali começavam a se projetar, dentre eles Jorge Andrade, tinham um compromisso sério, talvez mais com o teatro do que com o país, de dar pinceladas de cores dramáticas ao nosso quadro social. Pedreira das Almas, então, através da sua protagonista Mariana, vem dar voz à dor do povo brasileiro, que quer gritar, mas que se vê silenciado sempre que a esperança de se fazer ouvido lhe é oferecida.

Mariana é a protagonista de Pedreira das Almas, e é em torno dela que os conflitos vão dando forma à dramaturgia angustiante da peça. Seu namorado, Gabriel, é um dos idealizadores da revolta que se levanta contra o imperador do Brasil. Ao lado de Gabriel, nas lutas da revolução, caminha o irmão de Mariana, o jovem Martiniano. Assim como muitos moradores da pequena cidade de Pedreira das Almas, Martiniano está disposto a fazer qualquer coisa para atingir os objetivos traçados por Gabriel, objetivos estes vendidos como única forma de salvar a todos das injustiças do império. Também Mariana se vê encantada com as possibilidades que a revolução pode trazer para o povo, e sua paixão por Gabriel faz com que ela ajude o irmão a se juntar aos revoltosos, e o faz sem que sua mãe fique sabendo. Urbana, a mãe, não concorda com a revolução e as ideias vendidas por Gabriel, e faz forte oposição a ele. Mariana é quem tenta conciliar todos esses conflitos e consegue, mesmo que por pouco tempo.

A situação com a qual Mariana não contava era com a volta de Gabriel, sem a companhia de Martiniano, o que gera uma grande tensão entre ela e Urbana. Em meio às trocas de afetos entre Gabriel e Mariana, e as preocupações de Urbana, o exército chega à pequena cidade, à procura de Gabriel. A cidade toda se compromete em manter Gabriel protegido, mas Urbana se coloca disposta a falar. E o motivo não poderia ser mais complicado. Seu filho foi capturado. E a única forma de ser solto é entregar o esconderijo de Gabriel. Esse é o momento de maior ansiedade de Mariana. Sua mãe seria capaz de entregar Gabriel? Se Gabriel não for encontrado, o que acontecerá a Martiniano? Urbana não entrega o esconderijo, mas uma sequência de tragédias acontece e Mariana perde o irmão, e depois a mãe. O exército parte, a revolução ganha força e o povo de Pedreira, guiado por Gabriel, vai em busca de novas terras. Mas Mariana tem que ficar, a amargura do luto invadira seus olhos, sua carne e seus ossos. Não há mais entusiasmo no amor e muito menos na revolução. Só restou a dor.

Pedreira das Almas mostra, com fundo político, a dor do luto e como isso pode alterar consideravelmente os rumos da vida de qualquer pessoa, por mais que ela seja apaixonada pelas suas ideias. Assim foi com Mariana. Abriu mão dos ideais que construiu ao lado do seu namorado porque o preço que lhe foi cobrado foi muito alto. Talvez, muitos brasileiros, dos tempos do império, e de agora, tenham sentido tamanhas dores que preferiram desistir de lutar pelas coisas que lhes são importantes enquanto nação. Mas, mesmo sendo empático com essa dor, Jorge Andrade mostra que a mão de quem tem o poder pode ser injusta e violenta, e que se nos calarmos, não teremos menos dores. Continuaremos a sofrer, só que dessa vez, calados. Qual será então nossa escolha? O grito de amargura ou o silencioso sofrimento? Gritar, caro leitor, é estar vivo.

Alex Ribeiro Lopes

Resenhas de teatro às segundas-feiras, às 8h.