Publicado em Categorias Resenhas, Teatro

Por Alex Ribeiro

Pequenos Burgueses é uma peça de Máximo Górki, escrita por volta do ano de 1900. Por se tratar de uma peça que criticava a maneira de pensar conservadora que remetia ao czarismo russo, a peça sofreu com a censura. Na versão impressa, vendida antes mesmo de a peça estrear, houve um grande número de trechos censurados. O que viria a desagradar os mais de 60.000 leitores que adquiriram a peça impressa. O alcance do texto foi impressionante. Se nos tempos de hoje, um escritor alcançasse números semelhantes, já seria sinal de um certo sucesso editorial. Agora, imagine no início do século passado. Isso tudo se dava por toda a efervescência política em que Górki se envolvera. Ele era um grande entusiasta e colaborador do que viria a se tornar a Revolução Russa. É, dentro desse momento histórico, que em 1902 a peça receberia sua estreia. O clima era muito tenso, já que o público estava em polvorosa para assistir às cenas que Górki havia construído. Mas havia medo de que aquela tensão se transformasse em alguma manifestação mais explícita contra o Czar. O elenco pedia ao público que contivesse os ânimos, para que Górki não fosse prejudicado, ou até mesmo preso. A peça, enfim, estreia e o sucesso da versão impressa se confirma nos palcos. Máximo, o Amargo, tradução do nome escolhido pelo dramaturgo, entra para a história com esse belo clássico da literatura teatral. No Brasil, a peça foi montada, pela primeira vez, em 1963.

A princípio chamado de Cenas na Casa de Bassemenov, Pequenos Burgueses retrata a vida dentro de uma casa de família, naturalmente mantida pelo patriarca Bassemenov. Eis o homem e também a chave de todo o conflito que se revela na peça. É ele quem representa o pensamento conservador da época, e é ele, também, que quer uma família exemplar e de sucesso, dentro da sua visão anacrônica de mundo. E ele, um pequeno chefe de serviços de pintura, que construíra sua vida e patrimônio a partir de pequenas corrupções, e também a partir do aluguel de alguns dos quartos de sua casa, vê-se como um pai fracassado. Sua filha mais velha, Tatiana, é uma professora solteira que ele desejava ver casada já há muito tempo. Seu filho Piotr, que aspirou a uma vida universitária, não pretende seguir os sonhos que seu pai sonhou para ele. Está apaixonado por uma mulher viúva, inquilina de um dos quartos da casa do pai. Eis os dois motivos de maior decepção do velho Bassemenov. Afinal, a vida para ele devia seguir um rumo certo, seguro e com bom futuro, como seria direito às famílias de bem. Completando o quadro dos Bassemenov, temos a esposa, senhora Akoulina, que tenta, a todo custo, manter a família unida, mesmo que isso seja por pura aparência.

Apesar de toda a trama em torno dos Bassemenov, os protagonistas de Górki são outros. Nil e Pólia, eis os nomes dos nossos heróis. O primeiro fora criado por Bassemenov desde a infância, e desde que começou a trabalhar, precisa dar ao velho parte do seu salário. A segunda é uma espécie de diarista que faz os serviços de casa para os pequenos burgueses, além de ser uma parenta distante deles. E são os dois, após desgastados embates, onde suas formas de ver o mundo se contrapõem ao conservadorismo burguês do patriarca, que resolvem buscar a sua liberdade longe daquela casa tão asfixiante. Sim, asfixiante! Não há termo melhor para definir valores que não deixam a vida acontecer com liberdade. E é então que Górki coloca a frase que mais define aquele povo com quem passara a sua vida e que influenciara toda a sua literatura. E elas saem da boca do nosso amado Nil, quando ele se dirige a Pólia: “Você não tem medo da pobreza.”. É povo se livrando dos malditos valores burgueses!

De certa maneira, Pequenos Burgueses traz aquilo que justamente acontecia na Rússia, onde as novas ideias entravam em conflito com o modelo imposto. Ao mesmo tempo em que Górki atribui mesquinharia aos velhos e seus costumes, desconstrói estas velhas atitudes com muita vida e entusiasmo, características predominantes dos jovens e dos pobres locatários dos quartos de Bassemenov. Assim, dá ao texto um contraste interessante, entre a segurança de uma vida com recursos, porém, mesquinha, e uma vida de lutas, porém, virtuosa. É quando o homem Górki empresta ao artista Máximo sua forma de ver e estar no mundo. E nos dá um didático e necessário recado. Se estamos asfixiados com valores e pensamentos que nos impõem velhos Bassemenovs, que possamos, então, ser como Nils, ou Pólias, ou mesmo Górkis, que não tiveram medo de ir em busca da construção de uma vida melhor. De um país melhor. Apesar dos Pequenos Burgueses.

Enfim, olhar para Górki hoje é de suma importância para refletir o que se passa conosco e que papel estamos assumindo dentro do nosso quadro social, o que nossos valores representam e como vamos construir o caminho da nossa história. É obrigação nossa sermos os protagonistas.

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O Círculo de Giz Caucasiano

Por Alex Ribeiro

O Círculo de Giz Caucasiano é uma peça de Bertolt Brecht, escrita em 1944, ano este em que ele se encontrava em exílio, nos Estados Unidos da América. Na ocasião, houve um interesse da parte de alguns produtores da Broadway para que a peça estreasse na tão conhecida avenida de Nova York. Porém, o curto tempo exigido para que a montagem fosse ao palco, como é o costume dos espetáculos comerciais que por lá circulam, desagradou a Brecht, que acabou entrando em conflito com a produção e, consequentemente, cancelando o projeto. Mesmo assim, a peça ainda estreou em terras norte-americanas, em Minnesota, naquele mesmo ano. Já na terra natal do seu dramaturgo, O Círculo de Giz Caucasiano teve sua estreia apenas dez anos depois, em 1954, naquela que era a Alemanha Ocidental à época. No Brasil, ela foi montada, pela primeira vez, em 1963. Apesar de ter sido finalizada em 1944, Brecht já trabalhava na ideia de O Círculo de Giz Caucasiano desde o momento em que entrou em contato, em meados de 1920, com uma peça chinesa, de nome O Risco de Giz. Mais tarde, quando se encontrava exilado na Dinamarca, em 1938, ele se detém na carpintaria dramática da sua peça, que anos depois estrearia em Minnesota. A demora para a conclusão da escrita da peça se deu muito pela exigência de Brecht com os dois protagonistas, Azdak e Grucha, de quem vivia a questionar as ações. A peça se passa no Cáucaso, logo após o término da Guerra dos Trinta Anos.

Dois povoados estão em disputa por um pedaço de terra. Galinsk e Luxemburgo travam debate sobre a legítima posse do lugar, que originariamente pertencia aos primeiros e que viriam a abandonar o lugar, em fuga causada pela guerra. Encontrando a terra abandonada, o povoado de Luxemburgo a ocupa e nela trabalha, trazendo melhorias ao local. Ao fim da guerra, os Galinsk voltam à sua terra e encontram-na ocupada. Precisam, agora, decidir a quem pertence a terra. A forma encontrada, após muito debate e nenhuma solução, se dá por um recitante. É quando vão começar a encenar uma antiga peça passada nas tão distantes terras chinesas, durante uma terrível guerra. É a arte mostrando sua força! O teatro dentro do teatro!

E assim se dá a peça. Tendo sido o governador morto em ataques à sua casa, durante a guerra, não restou à sua família senão fugir às pressas. Em meio ao desespero da fuga, pensando em salvar a própria vida, a mulher do governador abandona o filho, colocando-o em risco de vir a ser assassinado pelos inimigos. Mas eis que Grucha, uma das empregadas do governador, salva a criança, e a leva consigo para um abrigo, onde vai criando o menino como se seu filho fosse. Grucha passa por inúmeros obstáculos e perseguições na sua luta para salvar o menino. Ela abre mão de esperar pelo noivo que partira para a guerra, desfazendo, assim, todos os seus planos de vida, até o momento. Porém, terminada a guerra, a mãe de sangue, que havia abandonado o pequeno Miguel, quer o filho de volta e, consequentemente, tirá-lo dos cuidados de Grucha. Caberá à justiça decidir.

Azdak, um juiz um tanto incomum, é quem vai decidir o futuro da criança. Ele, que a princípio parece um tolo, ou mesmo um beberrão irresponsável, está exercendo o cargo de magistrado de um modo um tanto diferente do habitual. Ao que se parece, nosso juiz é um idealista frustrado, um homem que perdera a fé na sua capacidade de realizar algum tipo de mudança no mundo. E eis que, ao julgar o pedido da mãe de sangue, faz uma proposta inusitada. O pequeno Miguel é colocado dentro de um círculo de giz traçado no chão. Cada mãe, a de sangue e a de criação, terá de puxar o menino por um dos braços, e aquela que conseguir tirar o menino do círculo, trazendo-o para junto de si, ficará com ele. Nessas circunstâncias, temendo que o menino ficasse ferido, Grucha desiste de puxá-lo. E eis que o juiz se mostra sábio, ao contrário do que imaginavam seus convivas. Azdak não dá a vitória a quem venceu, mas a quem de fato a conquistou, através do amor ao menino. Após o desfecho do julgamento de Azdak, a peça parece trazer a reflexão necessária aos dois povoados, Luxemburgo e Galinsk, que requeriam a terra como sendo sua. Qual o resultado da reflexão, não se sabe, já que o texto se encerra antes que nos seja revelado.

Brecht, como todos sabem, tinha como um de seus objetivos fazer com que seu teatro reverberasse no público, levando-o a questionar as configurações sociais e políticas vigentes tanto na sua Alemanha como em todo o mundo. Estando a Segunda Guerra perto do fim, Brecht vê a necessidade de colocar no palco um espetáculo que trouxesse reflexões sobre aquele momento. Porém, uma das suas preocupações na criação do texto foi o cuidado para que a obra não viesse justificar os malfeitos da guerra, que ele pretendia, na verdade, expor. Esta preocupação de Brecht também pode ser encontrada nos artistas de hoje, sobretudo no Brasil. Como fazer uma arte que reflita sobre nosso tempo, sem que ela seja mal compreendida, tomada como uma corroboração às mazelas a que estamos submetidos? De certa forma, o que vivemos no país hoje, o desmantelamento total da democracia, requer que partamos para a ação e criação. Não há espaço para hesitar. De repente, nos vemos como Gruchas desesperadas por salvar nossa tão jovem democracia. E Azdak? Teremos nós um sábio juiz que nos trará a justiça? Se temos, com certeza não está sob a luz dos holofotes.

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Por Alex Ribeiro

Toda Nudez Será Castigada é uma peça de Nelson Rodrigues escrita em 1965. Naquele mesmo ano, o diretor Ziembinski dirigiria a montagem de estreia da peça, no Rio de Janeiro, atingindo grande sucesso. Ziembinski, que em 1943 havia também dirigido a aclamada peça Vestido de Noiva, parecia ser o nome certo para trazer o Nelson Rodrigues das páginas da dramaturgia para a vida no palco. E o fez brilhantemente. Outra montagem aclamada foi capitaneada por Antunes Filho, em São Paulo, no ano de 1981. Apenas seis meses após o falecimento de Nelson, a montagem brincava ao mesclar elementos de outras peças do dramaturgo brasileiro. Era o início do Centro de Pesquisa Teatral do SESC-SP, que viria a se tornar uma referência do fazer teatral no Brasil, e, com isso, a dramaturgia de Nelson Rodrigues não poderia ficar de fora. Toda Nudez Será Castigada passa a compor o invejável quadro de Tragédias Rodrigueanas, cuja  capacidade de desenhar os tipos cariocas e escancarar as relações deterioradas pelos conflitos é impressionante. O sexo como motor pulsante de vida se choca a todo momento com a repressão do luto e de uma moral sustentada por pilares imaginários. Uma atmosfera sufocante toma conta das personagens e, consequentemente, do público. Mas, desta vez, Nelson Rodrigues não alivia. Não traz aquele humor absurdo a que se acostumaram seus espectadores. Está mais cru. Os conflitos estão todos nus. E toda nudez será castigada.

Herculano é um homem que acabara de enviuvar. Sua esposa fora vítima de um câncer no seio, morrendo precocemente. Herculano, imerso no luto, vive numa espécie de melancolia. Essa situação é agravada pela promessa que fizera a seu filho, Serginho, de não se envolver com mulher nenhuma. Patrício, irmão de Herculano, nutre um ódio ferrenho por este. Quer, a qualquer custo, destruir o irmão e tenta fazer com que ele sucumba aos desejos. É nesse momento que ele coloca frente à frente o agora casto Herculano e sua amiga prostituta Geni. Por mais que Herculano lute para preservar sua moral e a casta viuvez, não consegue resistir à sensualidade e beleza de Geni.

A castração e todo conflito interno de Herculano chegam a uma tensão insuportável quando Serginho descobre que o pai está se encontrando com Geni. Exige ele, Serginho, que o pai permaneça fiel à esposa morta. E, não sendo Herculano capaz de se afastar definitivamente de Geni, o filho declara guerra ao pai. Nesse contexto, é importante notar que as três tias de Herculano e Patrício vivem a controlar a vida sexual dos três homens da família, mas, é apenas com Serginho que a influência delas se dá por completo. Herculano, na ânsia de retomar o carinho do filho, passa a agredir Geni, enquanto tenta se reconciliar com as tias. Para, enfim, ter um pouco de paz. O motor de tensão continua a girar cada vez mais rápido. E entre agressões, sumiços e noites seguidas de prazer imenso, Herculano pede Geni em casamento.

Serginho, que fica a par de tudo, inclusive sendo testemunha da nudez do pai com Geni, fica transtornado. Vai ao bar, bebe, briga e é preso. Na prisão, é estuprado por ladrão boliviano. Herculano, ao saber, pensa ser um castigo à sua vida sexual com Geni. Pede ajuda ao médico, ao padre, ao delegado, mas todos são incapazes de qualquer ação que venha, de fato, a ajudá-lo. Parece o fim da relação pai e filho, já que Serginho atribui ao pai a responsabilidade pelo que lhe aconteceu. Eis que surge mais uma vez Patrício e convence Serginho a perdoar o pai, mas com a condição de que ele, o filho, se torne amante de Geni. Serginho acata a ideia do tio, e exige que o pai se case com Geni para ter o perdão que deseja. Também convence as tias a concordarem com o casamento. Elas passam a aceitar Geni e a criar para ela uma nova imagem. “Casou-se virgem a Geni, é honestíssima”. Tudo isso para que, no momento certo, Serginho chamasse o pai de cabrão. Mas antes disso, Serginho foge com o tal boliviano. E, abandonada pelo amante, Geni também vai embora. Herculano fica só.

Nelson Rodrigues traz no núcleo da família de Herculano todo o conflito que se estabelece entre a moral e os bons costumes do povo brasileiro daquela época. E dos dias de hoje também. Não é possível ser gente de bem e manter uma vida sexual liberta. É preciso abolir o sexo. O prazer deve ser evitado. Esse conflito se torna aterrorizante na imagem das velhas tias a manipular o jovem Serginho. Mas, mesmo elas, as puritanas, fazem questão de dar banho no rapaz, o único homem que lhes sobrara. E nessa perseguição, elas vasculham as cuecas dos homens da casa em busca de sinais de sexo. Se houver, é preciso que se castigue. Herculano parece fraco demais para renunciar a um dos dois lados. Ao mesmo tempo que se vê vivo nos braços de Geni, quer se encerrar no túmulo com sua mulher para agradar à família. De todos os personagens, Geni parece ser a mais livre. Não se apega a nada e a ninguém. Quer apenas ser amada e dar toda vazão ao seu desejo. Não tem vergonha e nem esconde quem é. Essa liberdade não se encontra nem mesmo em Patrício, que está preso no ódio ao irmão.

Se Freud tivesse contato com as obras rodrigueanas, com certeza elas lhe serviriam de material para suas análises e para a composição teórica da psicanálise. Assim pensamos nós, que olhamos para a peça e vemos um nítido conflito entre a liberdade, através do prazer, e o controle doentio exercido por uma moral frágil e distorcida. Mas, psicanálises à parte, podemos ver em Toda Nudez Será Castigada uma luta pela liberdade, castrada brutalmente. Não podemos esquecer que aquele era o primeiro ano do golpe militar de 1964, no Brasil. Castrar era um lema. Portanto, o que significava liberdade naqueles anos? O que significava prazer? Vindo alguns capítulos adiante na história tupiniquim, o que significa liberdade hoje? Parece-nos que o povo brasileiro é um tipo de Herculano que sabe muito bem o que quer, mas que dá ouvidos a umas tias velhas que nada mais querem do que o controle total da situação. Nossas tias já sabemos quem são. Estão lá, empossadas nos altos cargos do poder público. E a Geni? Quem será nossa Geni?