Publicado em Categorias Resenhas, Teatro

Por Alex Ribeiro

A Tempestade é uma peça de William Shakespeare, de 1611, e é, provavelmente, a última peça que o grande dramaturgo inglês escreveu. Nela Shakespeare utiliza de um recurso que já esteve presente na sua comédia Sonho de Uma Noite de Verão. A magia. Esse é o grande motor dramático que vai revelando o texto, seus personagens e seus conflitos. Mas ela, a magia, não está ligada a seres fantásticos como fadas e duendes, mas sim a um homem. O protagonista Próspero é quem se utiliza desse recurso para ter poder sobre os demais personagens. Mas como Shakespeare dota um humano de magia? Na verdade, o que se revela na peça é que tal magia não passa de um conjunto de ilusões, uma espécie de arte de confundir, que Próspero domina. E é através das ilusões que ele pretende exercer sua vingança. Opa! Este, sim, é um elemento demasiadamente humano e capaz de produzir tragédias. Ou, quem sabe, o riso, como é o caso de A Tempestade.

Próspero, após ter sofrido um golpe, vê-se isolado, junto com sua filha Miranda, em uma ilha remota. Ele era o respeitado Duque de Milão, deposto pelo seu próprio irmão, Antônio, que já estava governando Milão desde que Próspero decidira se dedicar aos estudos em sua imensa biblioteca. Enquanto nosso protagonista passava os dias mergulhado nos livros, Antônio foi conquistando prestígio e, também, tomando gosto pelo poder. Então, tudo vai se configurando para que o ducado seja tomado de seu legítimo Duque. O golpe acontece. Com apoio de Alonso, Rei de Nápoles, Próspero é deposto e obrigado a se radicar numa ilha desconhecida.

Acontece que uma grande tempestade atinge uma embarcação cheia de nobres senhores. É o início da peça! No desespero, os distintos Alonso, Antônio e seus pares se veem lançados ao mar. Que tempestade terrível! Que tragédia! Alguém sobreviverá? Pouco tempo depois, já em calmaria, são todos lançados às praias de uma ilha desconhecida. A ilha de Próspero. Mas, para tristeza do Rei de Nápoles, o seu filho Ferdinando não é encontrado. Tudo isso ocorre aos olhos e influência de Próspero, que pretende, agora com seus inimigos à sua mercê, colocar em prática sua tão esperada vingança.

É Próspero quem, através da sua arte de ilusionar, separa Ferdinando dos demais. Mas eis que sua linda filha Miranda se apaixona pelo jovem príncipe. Essa paixão irá determinar os rumos da narrativa da peça e também a conduta de Próspero. O romance do jovem casal acaba por serenar a passionalidade de Próspero que, então, resolve se revelar e retirar os náufragos da confusão da sua magia. O enlace do príncipe com Miranda é o que facilita o acordo de paz entre Próspero e Alonso e garante o ducado de volta ao nosso protagonista.

O riso, em A Tempestade, se garante nas grandes confusões que as magias de Próspero causam nos demais personagens. Cabe também mencionar Caliban, escravo da ilha, e mais dois outros náufragos bêbados que, de confusão em confusão, tramam tomar para si aquela ilha. Obviamente sem êxito.

No fim, o acordo pacífico e a justiça restaurada parecem nos trazer alívio, pois, antes, a sede de vingança que o texto nos provoca cria em nós um desejo que anseia pela tragédia. Pelo sangue. Shakespeare, então, adoça-nos a boca em sua última peça. Há esperança! Talvez porque mergulhar nos subterrâneos de suas tragédias não seja um caminho lá muito fácil, e ele, por alguma razão, resolvera suavizar. Talvez. Mas fica-nos, caro leitor, uma mensagem muito clara desde as primeiras trovoadas de A Tempestade. Quando se trata de poder, nem mesmo um irmão é confiável. Quanto menos o será um determinado boçal e sua prole.

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Por Alex Ribeiro

O Marinheiro é a única peça, propriamente dita, de Fernando Pessoa. Foi escrita em 1913 e publicada dois anos depois, na revista Orpheu. Peça propriamente dita, porque o próprio Fernando Pessoa dizia que alguns dos seus pseudônimos eram, na verdade, personagens de teatro, mas que lhes faltavam a peça teatral. Apesar de ter imensurável importância na poesia portuguesa, Pessoa também tem grande relevância dentro da dramaturgia lusitana. O Marinheiro foi a primeira obra a quebrar com a estética da dramaturgia vigente, do naturalismo, trazendo novas propostas de personagens, ações, e o desenrolar do próprio enredo. A começar pela figura do marinheiro, que não é personagem da peça, e apenas faz parte de um sonho de uma das personagens. O enredo não está ligado a uma trama, a um conflito, que aproxime a peça da realidade, do contrário, ele leva as personagens a mergulharem no passado e nos seus sonhos, distanciando-se, portanto, do presente. O Marinheiro é repleto de lirismo, o que o deixa bem próximo das outras obras de Fernando Pessoa, sobretudo do Livro do Desassossego.

Três irmãs sentadas nas suas cadeiras, numa sala de uma torre, em um castelo, velam por uma donzela de branco, em seu caixão. Quatro tochas acesas, uma única janela ao fundo, de onde se veem uma colina e, mais ao longe, um azul que pode ser o mar. A lua intensa ilumina o velório. Esse é o cenário que propõe Fernando Pessoa, e que não servirá de apoio a nenhuma ação, no máximo, será um ressonador dos sonhos e angústias das três veladoras. O silêncio é sempre presente, aumentando a inquietação por parte delas. É preciso quebrar o silêncio.

Uma das irmãs sugere que elas falem do passado. Do seu passado. Diferente do que se é comum em um velório, em que a vida da defunta seria rememorada, elas decidem falar de si, mas o fazem sempre com receio. Afinal, não entendem por que falar. A segunda irmã resolve, então, falar de um sonho, de um Marinheiro que, longe da pátria, tenta inventar para si uma nova pátria, com novas gentes e novas ruas, nas mais novas cidades. E entre um angustioso silêncio e outro, elas especulam se deveras existiu tal marinheiro. A irmã que relata o sonho se arrepende de o ter contado e anseia pelo dia, que não deve tardar a nascer. O dia chega. A angústia, o silêncio e o sonho continuam presentes, mesmo com a luz do sol. O extraordinário não acontece.

Fernando Pessoa nos insere dentro de um drama para ser sentido. Assim como a poesia merece ser sentida, mais do que entendida, O Marinheiro nos faz mergulhar no seu mar de sensações. Será tão difícil viver o presente, a ponto de termos que olhar sempre para o passado, em busca de uma memória que nos ampare? Será que só nos sonhos é que podemos ter uma vida deslumbrante ou reconstruir nossos ideais já perdidos? O que fazer com esse silêncio que nos atordoa? Pessoa nos faz navegar por entre divagações e nos instiga a perguntar o tempo todo. O que fazer com o presente? Eis aí, meu caro  leitor, uma pergunta difícil para nós brasileiros. Mas uma coisa é certa. É preciso quebrar o silêncio e encarar o presente. Apesar do presidente.