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Por Geraldo Lima

Esperou por ela ali no quarto.

Esperou que ela entrasse e fosse direto para o banheiro, como era de costume. Ah, sempre com a bexiga cheia, prestes a estourar. Ouviu o baque da porta sendo fechada e em seguida o jato do xixi batendo na água do vaso sanitário. O barulho da descarga, da porta sendo aberta e, por fim, o som de passos vindo em direção ao quarto.

Esperou sentado na borda da cama. Mas a espera tornava-se mais longa do que ele desejava. Os passos pareciam fazer um trajeto enorme, como se de repente a casa tivesse triplicado de tamanho. Para aumentar-lhe a ansiedade, ela fez um pequeno desvio e passou primeiro pela cozinha. Havia se esquecido de que, vez ou outra, ela chegava faminta. Cansada e faminta. Esperou sentado na borda da cama e com o envelope pardo numa das mãos. Ela iria perceber, tão logo passasse pelo vão da porta, que o rosto dele não trazia aquela serenidade de sempre, o sorriso e a alegria por vê-la chegar em casa depois do trabalho. O quadro era outro, turvo e sombrio.

Esperou sentado na borda da cama até os passos começarem a ressoar como se já estivessem dentro do quarto. O coração deu um salto grande e sufocante, obrigando-o a se pôr de pé. No envelope pardo, as mãos deixavam marcas de suor e nervosismo.

Esperou sentado na borda da cama até aquele instante, em que ela adentrou o quarto com o rosto banhado em luz e graça. Ela vinha de uma outra alegria que não podia se conter, mas, ao deparar-se com a imagem corrompida pela dor e exposta com tanta nitidez, acusou o baque, – o rosto desbotou-se e ela entendeu logo a razão daquele envelope brandido com fúria diante dos seus olhos.

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista.

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Por Geraldo Lima

O Comandante mandou que ele fosse verificar se havia algum ser entranhado naquele breu. Mandou-o sem o auxílio de nenhuma luz, como se ele tivesse algum parentesco com as criaturas que enxergam nas trevas mais densas. Como foi o Comandante que mandou, o soldado obedeceu. Antes, porém, passou-lhe pela cabeça indagar-lhe (mais por causa do medo que o aterrava) por que havia escolhido exatamente ele, um medroso confesso. As razões de tal escolha ficariam, como podem supor, ocultas para sempre. Imaginava, no entanto, que havia na escolha do Comandante um quê de maldade: há dias ele vinha notando que seu jeito titubeante lhe despertava impulsos sádicos. Esses impulsos, num crescendo, haviam chegado às raias da tortura psicológica. Para seu pavor, a situação ia piorando cada vez mais. Dava bem para prever a que nível chegaria essa escalada de maldade explícita: em breve, culminaria numa sessão de tortura física diante de todos. E, como se tratava do Comandante, ninguém, absolutamente ninguém, faria nada para contê-lo. No escuro, tateando a esmo, o soldado foi em busca do ser que dera leves sinais de rondar por ali, talvez à espreita de alguma caça. Esses sinais, ouvidos pelo Comandante, eram ora o crepitar de capim sendo esmagado por patas ou por pés (supondo, nesse caso, tratar-se de um humano), ora o estalido de um galho sendo quebrado, ora uma espécie de rosnado ou latido, ora um seixo sendo deslocado pela ação de um chute acidental, ora a respiração ofegante de quem age sob uma tensão infernal… Ele não tinha ouvido ruído algum, mas o Comandante, com sua audição aguçadíssima, afirmara ter ouvido mais de uma vez. Vem dali, ó, é só prestar atenção que vocês escutam. A impressão que dava era esta: exceto o Comandante, ninguém mais da tropa tinha ouvido ruído algum, fosse do que fosse. Mas quem teria coragem de contestar o Comandante? Quem teria coragem de chegar diante dele e lhe dizer sem vacilar: Comandante, o senhor se enganou, isso aí não deve ser nada, são apenas ruídos comuns na noite, sons dilatados pelo grande silêncio que costuma reinar a essa hora. Quem teria coragem de dizer algo assim, tão afrontoso? Ninguém ousaria tanto, pois ninguém queria levar um tiro nas fuças e ser deixado ali, apodrecendo ao relento. Com um pouco de alívio, o soldado deu-se conta de que a sua cor escura lhe servia muito bem de camuflagem naquele momento. Mesmo assim, o medo persistia. Galgava-lhe as pernas, fazendo-as tremer, e oprimia-lhe a mente, obrigando-a a parir imagens assustadoras diante dos seus olhos. Porém, era só isso. O ser real, autor daqueles supostos ruídos que incomodaram o Comandante, até agora não tinha se materializado. Ele estava ali, no meio do mato coberto pelo breu, e não ouvia ruído estranho algum. Então, que espécie de bicho seria aquele que estava rondando o acampamento? Seria mesmo um bicho? Avançou mais para dentro da noite tenebrosa, mesmo porque não havia como recuar. Caso recuasse, sofreria, sem dúvida alguma, um castigo severo, do qual, caso sobrevivesse, não se esqueceria jamais. De repente, numa brusca alteração de ânimo, o soldado sentiu vontade de topar com a criatura que estava lhe causando todo aquele transtorno. No meio do escuro aterrador, sem arma alguma (o Comandante quis que ele fosse assim, de mãos limpas, de peito aberto), cresceu, agigantou-se, perdeu a noção de perigo, e a sensação de medo, que antes quase o travava, transmudou-se em algo que estava na fronteira entre a insanidade e a bravura. Gritou em desafio: Quem está aí apareça agora! Eu não tenho medo de você! Eu não tenho medo de nada! Apareça aqui na minha frente. Anda, miserável, apareça! Esperou alguns segundos. Só dava pra ouvir a própria respiração descontrolada e o coração batendo fora do peito. Um calafrio percorreu o seu corpo de cima abaixo. Não sabia mais se era por coragem ou medo, mas continuou a desafiar o ser que, com seus ruídos tão sutis, praticamente imperceptíveis aos demais, havia chegado aos ouvidos do Comandante. Os sensíveis ouvidos do Comandante! O soldado não sabe até hoje se saiu daquele breu com as próprias pernas ou se os rapazes, obedecendo a ordens superiores, foram lá e o arrastaram de volta ao acampamento. Deu por si diante do Comandante, e todo o seu ser estava tomado de ira e desobediência. Era o Comandante a criatura que ele desafiava agora. Não tenho mais medo de você!, gritava alucinado. Eu não tenho mais medo de porra alguma! Os lábios grossos tremiam enquanto ele rangia os dentes com ódio incontido. Quando sentiu na cara os dois tapas dados pelo Comandante, para que voltasse ao normal, a fera que havia se apossado dele nas trevas cravou as garras no pescoço do superior – seu pescoço branco e fino – e só não o matou porque centenas de mãos arrancaram-nas à força. Depois, em meio a grande confusão, jogaram-no de volta ao escuro aos berros: Vai embora daqui! Anda, cara, vai embora! Fuja, tá esperando o quê?! Enquanto se embrenhava no mato e na noite, numa fuga desesperada, o soldado ouvia ainda as vozes dos companheiros enxotando-o feito um animal perigoso e imprevisível.

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Conto publicado, originalmente, no livro Uma mulher à beira do caminho [Editora Patuá].

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Por Geraldo Lima

[NO VÃO DO MASP I]

Atravessamos a Paulista de mãos dadas e seguimos em direção ao MASP.  Da calçada até o vão do museu – e daí até a bilheteria – foi um pulo. Pressa desnecessária: àquela hora da manhã, não havia fila ainda. A alegria, no entanto, durou pouco: assim que pedi os dois ingressos, o senhor do outro lado do vidro respondeu que o sistema estava travado. Deve voltar logo, tentou parecer otimista e evitar, talvez, algum princípio de revolta.

Em busca de cumplicidade para a minha frustração, voltei-me para a mulher ao meu lado. Ela, porém, já estava distraída, observando algumas pessoas aglomeradas, de modo meio caótico, lá na outra ponta do museu. A movimentação era intensa. Dava para ver crianças, jovens e adultos migrando incessantemente de um grupo para o outro, aparentemente focados em algo muito importante. Que será aquilo?, perguntei-lhe. Estão trocando figurinhas da Copa, você acredita? Claro que eu acreditava. Mais do que ser “o país do futebol”, éramos, naquele momento, o país-sede da Copa do Mundo, e tudo agora girava em torno desse evento esportivo.

Lembro-me de ter iniciado, na Copa de 94, um álbum de figurinhas, mas desisti logo em seguida. Não tenho – e creio que nunca terei – a paixão e a persistência que movem os colecionadores. Você coleciona alguma coisa? Não me respondeu: já havia se desinteressado pela agitação dos colecionadores e ouvia um músico de rua que tocava um contrabaixo acústico na calçada. A música chegava fraca ali onde estávamos, mesmo assim era possível distinguir, em meio aos ruídos de carros e vozes humanas, os acordes pulsantes de um jazz. Nem ousei lhe dirigir a palavra naquele momento: mesmo conhecendo pouco ainda da sua pessoa, da sua natureza humana, sabia-a amante da boa música. Era uma mulher sensível e inteligente, isso eu pude perceber tão logo iniciamos a conversa num bar da agitada Vila Madalena.

[NA AGITAÇÃO DA VILA MADALENA]

Estávamos em mesas separadas, mas a distância entre elas era mínima.  Tanto que a conversa de um grupo acabava invadindo o espaço do outro, transformando o ambiente num burburinho infernal.

Eu não estava nem um pouco interessado no papo dos meus companheiros de mesa. Aquela existência bovina, como dizia um amigo poeta, me entediava. Conhecera-os no Curso de Formação de Novas Práticas Bancárias na Era Digital e, paulatinamente, ia descobrindo que, entre nós, havia muito pouco em comum. Vez ou outra achava graça de alguma piada só para não parecer deslocado e chato. Queria era escapar daquele atoleiro verbal, – impossível, impossível, parecia me dizer uma voz encurralada dentro da minha cabeça: todas as rotas de fuga estavam tomadas por aquele falar incessante e vulgar.

Temendo que notassem a angústia e a aflição do meu olhar, desviei-o para o lado esquerdo sem outra intenção senão a de me pôr a salvo. Foi nesse instante, numa sincronia perfeita, como se houvéssemos ensaiado, que nossos olhares cruzaram-se. Sorri para ela. Ela sorriu de volta. Houve um primeiro momento de hesitação, de quase desistência, mas logo esticamos o pescoço e entabulamos uma conversa meio trôpega e ainda sem rumo. Pelo jeito, sentia-se sufocada também pela conversa banal que rolava na sua mesa. E fomos arranjando assunto do nada para manter acesa aquela chama salvadora. A intenção, sem que houvéssemos combinado, era escaparmos para um universo paralelo e nos refugiarmos ali.

Gosta de arte?, ela me perguntou.

[NO VÃO DO MASP II]

Enquanto ela se afastava, lenta e distraída, sem urgência e desespero, pus-me a observá-la pelo vidro da bilheteria.

Agora sua figura esguia, dentro de um vestido curto com estampa afro, ganhava um aspecto novo e fascinante. Parecia irreal. Uma criação mágica e inesperada da minha mente para escapar da solidão. A realidade circundante, com sua pulsação efêmera, já não a comportava mais. Habitava outro mundo agora, onde eu não poderia penetrar nem alcançá-la. Da noite passada, na Vila Madalena, até aquele momento, embaixo do vão do MASP, seu ser ganhara contornos inéditos e suas fronteiras, aparentemente nítidas e óbvias, ampliaram-se rumo ao inexplicável. O cabelo crespo, preso por uma faixa, crescia para o alto, denso e vigoroso.

Uma fila bastante extensa formara-se atrás de mim e eu não havia notado, tão entretido estava em observar os delicados movimentos da mulher dos meus sonhos (já pensava assim) naquela manhã de domingo. Algumas vozes alteradas começaram a protestar contra a demora no atendimento e só se calaram quando lhes expliquei que o sistema estava travado. O sistema, seja ele qual for, estará sempre sujeito a falhas, ponderou uma senhora logo atrás de mim. Deixei os ocupantes da fila entregues a uma calorosa discussão sobre as vantagens e desvantagens do mundo tecnológico e voltei-me para o vidro da bilheteria.

Flanava tranquila por entre os painéis de uma exposição de fotografias da natureza. Um casal de coreanos passou rente a ela, mas nem foi notado. Você está linda com essas botas de cano curto e esse vestido com estampa afro, pensei em lhe dizer, como se ela pudesse me ouvir ali no vidro da bilheteria. Porque agora ela só existia ali, virtualmente. Ainda que eu desejasse de modo intenso, como acontecera na mesa do bar, não poderia tocá-la mais.

Talvez tenha me distraído alguns segundos com outras imagens refletidas no vidro, como a do cartaz sobre Leitura Dramática – Letras em Cena, visto de modo espelhado, ou a do movimento incessante de pessoas na calçada, daí não ter notado que ela havia desaparecido do meu campo de visão.

Num primeiro momento, procurei-a sem sair da fila, ora buscando-a no vidro da bilheteria, ora voltando-me para a realidade concreta, da qual, aparentemente, ela havia se descolado. Depois, tomado de preocupação extrema, saí da fila e fui procurá-la ao redor do museu. Ouvi alguém na fila me chamando, avisando-me que o sistema havia voltado a funcionar. Não lhe dei atenção. Percorri todo o espaço do vão do MASP, desci para a calçada e busquei-a numa direção e noutra, segui um pouco rumo à 09 de Julho, já meio atarantado, no caminho fui perguntado se não tinham visto uma mulher negra, magra, de cabelo preso por uma faixa vermelha e usando um vestido curto com estampa afro. Ninguém a tinha visto! O senhor da bilheteria, por exemplo, não se lembrava de tê-la visto ao meu lado assim que chegamos. Como era possível isso?! Que ela havia me abandonado era bem plausível, agora, ele não se lembrar dela ali, ao meu lado, era algo absurdo. Quem estava travado, o sistema ou ele? Deve ter deduzido que eu estava louco, ou que era, no mínimo, um sujeito abusado, – virou-me as costas e foi brincar com o celular.

Ainda que pudesse ser em vão, olhei mais uma vez para o vidro da bilheteria na esperança de vê-la refletida lá, chegando suave e etérea, para pôr um fim ao meu assombro e desespero.