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A Cantora Careca

 Por Antônio Roberto Gerin

A CANTORA CARECA é a primeira peça escrita pelo dramaturgo romeno Eugène Ionesco, em 1949, no pós-guerra, portanto, e que inauguraria uma nova forma de se fazer teatro, o teatro da não realidade, da não comunicação, o teatro que se opõe ao teatro, a que se daria o nome de Teatro do Absurdo. E absurdo é saber que poucos, à época, acreditariam na força clássica deste pequeno texto, a que o próprio Ionesco rotularia de anti-teatro. Pois, o texto teatral A Cantora Careca foi para os palcos, pela primeira vez, em 11 de maio de 1950, em Paris, no Théâtre des Noctambules. E logo depois, no mesmo ano, subiria ao palco do Théâtre de la Huchette, 90 lugares, ali, na rua Huchette, 23, onde, pasmem, até hoje permanece em cartaz. Pode-se comprar um ingresso a vinte e seis euros. E o espetáculo começa às 20h. Quase setenta anos em cartaz! Quem acreditaria num absurdo desse.

Não há narrativa, senão uma sequência de diálogos absurdos. Este seria o termo para descrever a incapacidade de as palavras estabelecerem uma lógica no mínimo inteligível e que nos pudesse levar a supor a existência de ações dramáticas e vidas interiores das personagens. A solidão toma conta e a incomunicabilidade se faz através das palavras, tornando qualquer situação, no mínimo, insólita. O que se vê é a palavra sendo dita, a não comunicabilidade de ações que parecem não existir, cada personagem no palco reduzida à sua insignificância. E insignificante é o que parece ser o casal inglês, os Smith, que recebem a visita do casal inglês, os Martin, e os recebem, em sua casa inglesa, sem saber por quê. Esta é a não sinopse de A Cantora Careca.

O que se pode depreender é que a estrutura dramática começa, desenvolve-se e termina na palavra. A palavra parece ser a personagem se desdobrando numa sequência ocultamente cômica de obviedades. É alguém tateando a sombra para ter a certeza de que ela existe. Seja o que for, e o que se diga, Ionesco conseguiu construir a incomunicabilidade como forma de não vida, e o fez de uma forma peculiar e inquestionável. A forma vencendo avassaladoramente o conteúdo. As personagens mal cabendo dentro das palavras.

Até o humor, que corrói cada palavra dita, parece não existir. Finge-se. Mas quem já teve a oportunidade de assistir a alguma montagem desse texto, ou mesmo comparecer a leituras dramáticas, como a que foi feita no Teatro Goldoni, em Brasília, tempos atrás, pelo grupo Os Dramátikos, vai poder perceber que o texto é tão forte que deixa escapulir um humor denso e inevitável, que nos encanta e ao mesmo tempo nos espanta. É o humor que nos coloca diante de uma realidade que parecemos desconhecer, mas que está ali, sendo por nós experienciada. Sim, o humor tem esta funcionalidade em A Cantora Careca. É ele que constrói a realidade do texto. O humor ressurge do nada para mostrar nossa insignificância. Vivenciando, pois, este pequeno texto, despretensioso, dá para entender por que ele é tão eterno nos palcos.

Antônio Roberto Gerin

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Ricardo III é uma peça escrita por William Shakespeare entre 1592 e 1593, baseada na história do Rei Ricardo III da Inglaterra. A peça é precedida por outra obra histórica de Shakespeare, Henrique VI, esta dividida em 3 partes, formando, assim, as duas obras, a primeira tetralogia do autor britânico. Sete anos após escrever Ricardo III, Shakespeare entraria numa nova etapa de sua dramaturgia, onde criaria suas grandes tragédias.

A personagem de Ricardo é construída de uma maneira muito singular para os padrões shakespearianos de até então. Aqui, todas as ações da personagem Ricardo levarão a todas as consequências que lhe acometem no decorrer da peça. Talvez este seja um dos esboços de construção dramática das suas grandes personagens trágicas, que viriam a ser escritas alguns anos depois. Por outro lado, na construção do seu Ricardo, Shakespeare molda sua personalidade com uma maldade desmedida, quase sem aspectos humanos, o que possibilita o distanciamento do espectador, para que possa se encantar com o carisma, dissimulação e humor ácido da personagem. Essa estrutura dramática da personagem de Ricardo aparece em muitos vilões do cinema, que acabam, apesar de sua maldade, despertando um grande interesse do público. Talvez um dos exemplos mais interessantes seja a construção de Scar, em O Rei Leão, filme este em que, aliás, as personagens têm muito de Shakespeare.

O exímio dissimulador Ricardo quer ser rei a qualquer custo, e não poupará esforços, nem vidas, para chegar ao trono. Arquiteta a morte do rei e de todos os possíveis sucessores ao trono. E não foram poucas as mortes, nem mesmo seu próprio irmão tem a vida poupada, pelo contrário, é uma das primeiras mortes a acontecer. As mulheres que aparecem na peça, rainhas e princesas, parecem ser as únicas a perceber a maldade intensa de Ricardo, pois são elas as viúvas das mortes por ele causadas.

Após dissimular a santidade e a retidão de caráter, e fingir não se acreditar digno do trono, Ricardo é coroado. Porém, não haverá tranquilidade para um rei tão vil. Uma guerra é declarada e a coroa está em risco. E no meio da batalha, já em contato eminente com a derrota, Ricardo profere a icônica frase da peça: “Meu reino por um cavalo!”.

Apesar de ser um personagem que não aparenta virtudes, Ricardo III, ainda assim, serve de base apara entendermos o comportamento de muitos líderes para chegarem ao poder. Na vida e na arte, conseguimos ver várias personagens que estão dispostas a tudo para chegarem e permanecerem no poder. Mesmo que para isso precisem matar muitos inocentes. Sejam as mortes físicas, na Inglaterra de Ricardo III, ou as inúmeras mortes simbólicas e concretas, no Brasil atual. Meu país por um laranja? Trágico.

Alex Ribeiro

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O texto teatral Vinho Tinto Seco foi escrito pelo dramaturgo Antônio Roberto Gerin, em 2005, e teve sua primeira montagem no ano de 2016, na cidade de Passos, Minas Gerais. Agora o espetáculo ganhará uma segunda montagem, com estreia marcada para o dia 24 de maio de 2019, no Teatro Goldoni, ficando em cartaz até o dia 9 de junho, sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 19h. O espetáculo tem a direção do próprio autor, e no elenco os atores da Cia de Teatro Assisto Porque Gosto, Alex Ribeiro e Leivison Silva.

Leivison Silva como Químico e Alex Ribeiro como Pianista.  Fotografia: Marcelo Dischinger

Numa determinada noite, um jovem professor de Química do Instituto Militar de Engenharia compra uma garrafa de vinho para comemorar, com sua namorada, a sua ida para a Universidade de Stuttgart, na Alemanha, onde fará, por três anos, um doutorado em Química. Enquanto espera sua namorada Gabriela chegar, o vinho e as duas taças postas sobre a mesa da sala, ele começa a entrar em sérias dúvidas se esta seria mesmo a escolha certa para a sua vida, isto é, abandonar seus sonhos de ser um grande pianista para poder se dedicar exclusivamente ao doutorado. Não é a Química a sua escolha de vida. Sua escolha natural de vida é a Música. O jovem nascera pianista, e desde criança tem como única paixão a Música, e sua referência é a avó paterna, grande pianista, por quem nutria um fascínio silencioso e incontrolável. Apesar de lutar desesperadamente por seu sonho, não teve na família qualquer apoio para seguir a carreira de pianista. A despeito das dificuldades, chegou à juventude como um pianista admirado por grandes maestros. Só faltava dar o passo definitivo para o sucesso. No entanto, vê-se agora, nesta noite, com a decisão tomada de abandonar tudo e ir para a Alemanha. Eis que a dúvida passa a consumi-lo.

O Químico e o Pianista. Fotografia: Marcelo Dischinger

Pode nos parecer óbvio, mas o ser humano não tem como se abster de usar a principal possibilidade que o confirma como um ser livre. Todo ser humano, para sobreviver como sujeito de si, tem que escolher. Como o ar que respiramos, a escolha nos retroalimenta a cada minuto. Por exemplo. Podemos estar agora sentados, mas lembramos de que queremos tomar um cafezinho, logo ali, na mesinha à nossa frente. Tomamos a decisão de nos levantarmos e nos servirmos do café. Um dedo de xícara, meia xícara ou uma xícara inteira? Nada, pouco ou muito açúcar? Mas só nos damos conta de que vivemos de escolhas quando nos deparamos com aquele assustador momento em que temos que tomar uma grande decisão. Mamãe poderia tomar a decisão por nós. Papai. A titia. Seria, provavelmente, um desastre.

Fotografia: Marcelo Dischinger

O autor de Vinho Tinto Seco nos traz o momento crucial em que o jovem pianista está no limite de sua vida, e pode, com uma simples decisão, decretar o fim da sua razão de viver. Sim, sem exageros. Temos razões de viver que nos tornam reais, completos e vivos. Mas podemos nos omitir, tomando a decisão contrária. Mantermo-nos numa zona neutra, em que nos anulamos como essência para assumirmos uma existência estranha a nós mesmos. E agora é o momento de o pianista decidir entre ser ele, mesmo diante de tantas impossibilidades, em que sacrifícios e renúncias o acompanharão noite e dia, ou se tornar um ser inconsciente de sua existência, que é quando nos limitaremos apenas a decidir que cafezinho tomar.

Cia de Teatro Assisto Porque Gosto