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A despedida do Vagabundo

 Quando Charles Chaplin começou a produzir TEMPOS MODERNOS (83’), EUA (1936), já se pressentia que este seria o último filme estrelado pelo adorável Vagabundo (The Tramp). Falamos de uma época em que o cinema sonoro já era totalidade unânime. Época em que milhares de filmes despejavam seus intermináveis diálogos nas telas dos cinemas mundo afora, e os musicais dominavam a cena com suas produções suntuosas. Chaplin entendeu que era chegada a hora de calar para sempre o seu Carlitos. É com este olhar, de despedida, que devemos assistir a Tempos Modernos. Uma decisão difícil para Chaplin, ter que se desfazer de sua genial criação, a base do seu sucesso como artista. Seria o ponto final da figura mais humana e talvez mais completa que jamais se viu como arte cinematográfica, cuja longa trajetória tornara-se a síntese da história das primeiras décadas do cinema. Este é o principal cartão de visitas de Tempos Modernos. Ter sido escolhido para ser o último filme mudo de Charles Chaplin. A consciência de que o tempo chegara ao fim para seu Vagabundo é tão perceptível que Chaplin não poupou cuidados estéticos nem pantomímicos para elevar Tempos Modernos ao nível máximo de obra prima. Em Chaplin, Tempos Modernos simboliza o resumo mais que perfeito de sua genialidade.

O filme inicia com uma imagem inusitada, quando Chaplin, numa sequência de segundos, compara as ovelhas em movimento com o bando de operários, encarneirados, entrando numa fábrica. Entre as ovelhas, prestem atenção, uma é negra. Deste modo, o filme parece cumprir à risca o que é declarado logo em seu início. Diz-se que será “uma história sobre a indústria, a iniciativa privada e a humanidade na busca pela felicidade”. Previa-se que Chaplin iria entrar com seu Vagabundo na fábrica e de lá não mais sairia, levando talvez a narrativa a um esgotamento precoce. Felizmente, depois de dezessete minutos, numa belíssima sequência em que Chaplin nos mostra como a indústria desfigura o ser humano, vemos nosso herói sendo carregado em uma ambulância, acometido por um estresse destruidor e genialmente cômico. A mecanização, com seus absurdos gestos repetitivos, enlouqueceu nosso herói. Mas, por sorte, o Vagabundo logo sai do hospital, recuperado. Daí em diante, o filme ganha as ruas e vamos poder ficar apenas com a última parte da declaração acima, a de que a humanidade não desistirá nunca na sua busca pela felicidade.

E como será essa busca? Para Chaplin esta é uma resposta simples. Através do afeto. O Vagabundo se apaixona. Por uma órfã andarilha. Como ele. Ela se chama Ellen Peterson, encarnada por Paulette Goddard. O Vagabundo então se dá conta, assustado, de que ele terá que trabalhar se quiser constituir um lar. E ele quer um lar. É o seu sonho. É o prenúncio do seu fim, por isso ele sabe que terá que buscar um lugar onde se recolher. Provável em nenhum filme anterior de Chaplin um papel feminino tenha ocupado tanto espaço como protagonista. A andarilha movimenta os passos do Vagabundo. Motivado pela paixão, começa para ele o périplo em busca de um emprego (felicidade) numa Nova Iorque arrasada pela depressão econômica, fruto da quebra da Bolsa de Valores, em 1929.

Nem precisamos dizer que nada vai dar certo para o Vagabundo. E não tem que dar mesmo! Senão, como ter filme? O velho Chaplin necessita de pretextos, de infortúnios, de enganos, da ineficiência do Estado, do bom e disponível policial, enfim, tudo é muito bem arranjado para que ele possa exibir diante de nossos olhos seu encantador repertório de pantomimas, desenhada em cima da precisão artística, do gesto afetivo e da ironia cáustica. A cena inicial, ainda na fábrica, em que ele surta, é o exemplo mais contundente e memorável do uso do corpo como uma linguagem de irreverência e grito. Portanto, como não esperar que Chaplin nos desenhe, na tela, em preto e branco, o próximo gesto, com a leveza e a graça de quem carrega em si o peso de uma humanidade em decomposição?

Cabe falar aqui um pouco do processo criativo do artista Chaplin. Quando iniciava uma nova produção, não necessariamente tinha um roteiro em mãos. Pasmem! Ele não começava o projeto sentado em cima de um roteiro seguro e testado. Charles Chaplin trabalhava com argumentos. Tinha a ideia do que queria, mas não sabia por onde exatamente encaminharia a construção da narrativa. Juntando-se à sua mania de perfeição, podemos imaginar o alto custo de esforços e dinheiro despendidos até a finalização do filme. Dezenas de refilmagens de uma única cena. E, não à toa, às vezes se obrigava a refilmar determinada cena pela simples razão de mudanças na direção da narrativa. Não mais se encaixava na nova proposta. Para quem vai ao cinema e vê a arte pronta, não pode imaginar o hercúleo esforço mental e financeiro de Chaplin para dar à sua criatura o acabamento artístico que ela merecia. A ela, e ao público.

Chegada a hora de irmos ao ponto central da nossa discussão. É visível a inquietude de Chaplin em ter que trabalhar com o sonoro. Esta preocupação já havia transparecido antes, em menor intensidade, em 1931, com Luzes da Cidade. E, agora, eis que seu grande conflito, manter o Vagabundo mudo, sem a voz dos diálogos, reaparece. Com mais força. Teria mesmo o Vagabundo que falar alguma coisa? Caro espectador, Chaplin construiu uma linguagem corporal lúcida, eloquente e fabulosamente original. Pra que a voz se o corpo diz tudo o que é necessário para a construção dramática da narrativa? Carlitos é corpo, e o corpo é sua voz!

Chaplin vai resolver esta questão de uma maneira muito habilidosa. Nenhum som sairá da boca de qualquer personagem. Mas sairá por outras vias. Da vitrola, quando uma voz explica as absurdas utilidades de uma máquina alimentadora. Dos telões instalados na fábrica, de onde sai a imagem e voz do patrão. Mas ele, o patrão, quando aparece, é absolutamente mudo. São, pois, os sons da trilha sonora que acompanham, quase na intimidade, a evolução de cada cena. Temos ainda os curtos-circuitos das máquinas, os sinos, a campainha, apito, tiro de revólver, notícias de rádio, sirene de camburão, e até sons de indigestão estomacal. Todos os sons possíveis estão no filme, menos a voz humana in natura. Então. Tempos modernos é um filme sonoro ou um filme mudo?

E chegamos ao final, quando finalmente vamos ouvir o som da voz do Vagabundo. Chaplin reservou o momento para a sua última cena genial, quando ele canta e dança no salão de um Café em que trabalha com sua amada. Nervoso, ele põe-se a ensaiar e a decorar a letra da música. Ora, deveríamos ouvir as palavras emitidas pelo Vagabundo! Só que no salão há uma outra apresentação musical, um coral, cujas vozes e instrumentos abafam a voz de Chaplin. O Vagabundo continua mudo, portanto. Até entrar no salão para executar o seu número, quando perde a cópia da letra da música, o que o obriga a inventar sons ininteligíveis e incompletos para disfarçar o esquecimento da letra original. Fala, mas não fala, digamos. E assim, o máximo que Chaplin permitiu para a história do seu Vagabundo foi que tivéssemos uma vaga ideia do timbre da sua voz. O que valeu mesmo e o que nos fica é a última cena memorável do seu último filme mudo.

Para finalizar, um toque de memória afetiva. A maçã de Chaplin. Ela aparece em duas ocasiões no filme, e nos remete à sua infância, quando o menino Chaplin vivia em um orfanato, onde certo dia cobiçara tanto uma maçã, símbolo de requinte, que acabou sendo ferozmente punido pela instituição. Sendo um pouco sentimental, parece-nos, na despedida do Vagabundo, Chaplin também se despede de sua dolorosa maçã.

                Antônio Roberto Gerin

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Prometeu Acorrentado é uma tragédia grega escrita por Ésquilo, por volta de 458 a.C., encenada pela primeira vez no festival de tragédias, acontecido em Atenas, naquele ano. Festival este que era parte de uma espécie de ritual religioso, que se realizava naquele tempo, onde os dramaturgos apresentavam trilogias de tragédias para toda a pólis. A influência religiosa sobre as tragédias gregas é significativa. A própria organização dos festivais tem muito mais de religioso do que de artístico, uma vez que são derivações das festas dionisíacas, celebrações de agradecimento pelas colheitas daquele período. É sob esta influência que Ésquilo escreveu tragédias que tinham como temas e personagens centrais as divindades gregas. Neste contexto, Prometeu Acorrentado tem uma característica particular. Todas as personagens são divindades, com exceção da mortal “Io. Não foram encontradas características como essas nas demais tragédias gregas a que temos acesso, o que nos leva a concluir que o dramaturgo possivelmente tinha a intenção particular de revelar e exaltar o poder divino, de forma incontestável. Esta característica está presente inclusive na maneira grandiosa com que falam as personagens, onde a dramaturgia se revela em forma sobre-humana.

Por celebrar as divindades no concurso de dramaturgos, Prometeu Acorrentado, evidente, faz parte também de uma trilogia. No entanto, das 90 tragédias escritas por Ésquilo, Prometeu Acorrentado é uma das 13 que se conservaram por inteira até a atualidade. Dentre as obras destruídas, de que algumas restaram apenas fragmentos, estariam as outras duas tragédias sobre o titã Prometeu, formando, em sequência cronológica, a trilogia Prometeu Portador do Fogo, Prometeu Acorrentado e Prometeu Libertado.

Zeus fica furioso ao descobrir que Prometeu roubou o fogo divino e levou-o aos homens. Como punição, ordena que o titã seja acorrentado numa montanha afastada, na região da Cítia. Lá ele tem os cravos fixados na rocha, através das mãos de Hefesto. Prometeu então começa a cumprir aquela sentença que durará séculos. Mas não deixa de ser estimado entre as divindades e recebe a visita das Oceanides, filhas do deus dos mares e do próprio Oceano, e por último de “Io”, ambos compadecidos do destino de Prometeu.

Mas Prometeu não se abate com o castigo que lhe foi imposto. Pois sabe que Zeus precisará de seus poderes. Prometeu tem o poder de saber as coisas que acontecerão nos futuros mais longínquos. Ele sabe quando será libertado e, também, quando Zeus será destronado. E é isso o que mais irrita o todo poderoso do Olimpo. Zeus está preocupado por não ter a informação fundamental para a manutenção do seu poder. Afinal, quem o destronaria? Com isso, Hermes, o arauto dos deuses, é enviado para dizer a Prometeu que, se ele se curvar e pedir perdão, Zeus irá suspender o castigo. A negativa de Prometeu gera um agravo ao seu castigo. Todas os dias, uma ave de rapina irá comer seu fígado, causando uma dor terrível, mas à noite o fígado se reconstruirá para ser novamente devorado no dia seguinte, e assim pela eternidade.

O nome Prometeu significa “aquele que vê antes”, e isso é o que move a trilogia de Ésquilo. Prometeu já sabia de tudo que aconteceria a ele, mas também sabia tudo que se passaria com Zeus. A fonte maior de poder de Prometeu está no conhecimento, na sua habilidade de saber o que vai acontecer. Talvez este seja o grande impacto da trilogia de Prometeu, se conectar ao leitor, que também tem a ânsia pelo conhecimento do futuro. Ao mesmo tempo, deixa-nos uma mensagem clara. Que o conhecimento pode nos mostrar possibilidades, e estas possibilidades nos dão a chance de escolher. Exaltar um deus tirano, nos humilhar perante ele? Ou resistir à sua pesada punição até que ele caia do seu trono? Fazer o bem aos homens, mesmo sabendo que será preso por isso, ou deixar que o fogo seja apenas um privilégio dos deuses? Parece-nos que a tragédia grega tem muitos pontos parecidos com política brasileira. E talvez seja isso, caro leitor. Estamos em meio à uma tragédia tupiniquim. E assim ecoa o grito trágico. Prometeu livre!

Alex Ribeiro

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É aparentemente complicado falar de uma obra literária sem se deter em quem a escreveu. Falar do texto teatral O Pato Selvagem sem mencionar Ibsen? É consenso: conhecendo a vida do artista melhor apreenderemos a sua obra. E Henrik Ibsen é um exemplo desta simbiose entre criador e criatura. Sua obra está intimamente associada ao que ele pensava e como agia. Fez de sua arte um compêndio de pensamentos e atitudes que pudesse levá-lo a compreender melhor o mundo em que vivia. E transferia estas compreensões para as suas obras. Não à toa, Ibsen foi o grande dramaturgo do seu tempo e, ao morrer em 1906, deixaria um legado artístico imensurável. Alguns de seus textos, inclusive, vieram cercados de muita polêmica. Sua fala teatral mexia com a sociedade norueguesa, para Ibsen, atrasada e historicamente subserviente. Os embates foram tão fortes que Ibsen, voluntariamente, viria a se exilar na Itália, depois na Alemanha, em Munique, ficando dezessete anos longe do seu país. O Pato Selvagem, escrito em 1884, sob alguns aspectos, pode ser considerado a grande realização de Ibsen. Estão ali condensadas as suas principais virtudes como dramaturgo. Mais que isso. O Pato Selvagem resume a preocupação de Ibsen com as vulnerabilidades humanas – leia-se, mediocridades -, tão suscetíveis à tirania da mentira. E é sobre as mentiras e suas maldições que Ibsen gosta de escrever. Para ele, trilhar o caminho da verdade é a única forma de se estabelecer relações humanas saudáveis. Mas, uma vez construída a mentira, sair dela pode levar ao trágico. Ibsen nos alerta. Pensemos duas vezes antes de mentirmos, pois, uma vez criada a mentira, alguém se tornará vítima dela.

No contexto acima, podemos dizer que O Pato Selvagem, sob o ponto de vista de sua construção narrativa, gira em torno de uma mentira. É o punhal fincado no coração do modelo familiar burguês, modelo este que define a paternidade como uma atribuição intransferível. E se a paternidade for transferida? Bem. Problema sério, que precisará ser resolvido. Com uma mentira.

Hjalmar Ekdal é um fotógrafo, e está prestes a fazer uma grande descoberta, aliás, descoberta que ele exatamente não sabe bem o que é. Enfim, um gênio que a humanidade ainda não descobriu. É casado com Gina Ekdal, a mulher ideal para retroalimentar as ilusões do marido. Com ela tem uma filha, Hedvig, que se derrama de amores e admiração pelo pai. Mora também na casa o pai de Hjalmar, o velho Ekdal, antigo sócio de Werle, o industrial de usinas. Fora Werle quem arquitetara, no passado, as mentiras que levaria o velho Ekdal para a prisão. E, mais tarde, a mentira, aquela da paternidade, que causaria a tragédia irreparável. Tudo, pois, caminha em pleno equilíbrio, o cotidiano se sustenta nos disfarces, com aparências saudáveis, até que Gregers Werle, o filho do industrial Werle – aquele! -, desce lá de cima das usinas, onde esteve isolado por anos e vem fazer o quê? Dizer as verdades.

Uma das questões que se coloca em relação ao papel da literatura, o teatro em específico, é a de como sangrar as verdades sem que elas assustem o leitor – e o espectador. Enfim, a sociedade. Sem que se transforme num compêndio de denúncias. Talvez seja este um dos dilemas do realismo, escola literária do século XIX, na qual Ibsen atuou como grande mestre. E acreditamos que este deva ter sido também o dilema do Ibsen realista. Afinal, o que se ganha com o revelar a verdade? Como fazer prevalecer a verdade se o homem tem na mentira seu álibi moral? Sendo assim, até onde não seria melhor viver na mentira, que traz a paz aparente, do que insistir na verdade, que traz o peso insuportável da responsabilidade?

Enfim, a verdade, segundo Ibsen, ressurge da mentira desmascarada. Eis o grande teatro! Mas há o risco. Desmascarando uma mentira, poderemos encontrar outra, na camada inferior. E mais outra. Neste caso, melhor pararmos por aqui e ficarmos com as mentiras mesmo. Afinal, fazer prevalecer a verdade exige muita luta. E muita coragem. O teatro, enclausurado, fará isto por nós. Brandirá as verdades que não vamos ouvir. Ademais, enquanto o teatro não vier para as ruas, estará tudo bem. E se ele vier, a gente chama a polícia e o enclausura novamente. Ou expulsa. Como fizeram com Ibsen, obrigando-o a se submeter ao auto-exílio. Ibsen é a prova de que a verdade não tem lugar neste mundo. No máximo – e olha lá! -, nas salas de teatro.

Antônio Roberto Gerin

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