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O Pai é uma peça de Johan August Strindberg, escrita em 1887, e é uma das peças mais importantes do multiartista sueco que, além de escrever prosa e teatro, também se dedicava à fotografia e à pintura. Strindberg é um dos escritores mais importantes da Escandinávia, e suas obras influenciaram decisivamente, não só na sua região como no mundo todo, a literatura e o teatro do início do século XX. No período em que a peça O Pai foi escrita, o dramaturgo passava por intensa crise no seu primeiro casamento, e carregava angustiosamente a dúvida da paternidade. E este foi o tema que Strindberg escolheu para explodir a tragédia do personagem principal da peça, o Capitão Adolf, que vê sua sanidade mental minada, também, pela dúvida da paternidade. De certa forma, Strindberg nos mostra uma obra confessional, onde ele tenta buscar, na sua dramaturgia, dissecar toda a dor pela qual ele mesmo estava passando. Mesmo ele se considerando contrário ao conservadorismo, suas feridas emocionais, causadas pelas relações com as mulheres, não deixaram de transpassar um tom misógino nas suas peças. Contudo, isso não torna suas obras pequenas, pelo contrário, as engrandece com a sua coragem de expor suas dores de forma tão intensa. Afinal, das relações humanas, qual é aquela que não deixa marcas? As de Strindberg estão carregadas do ardor das suas fragilidades e feridas emocionais.

Na primeira cena da peça, o Capitão e o Pastor, seu cunhado, conversam sobre o filho de uma das criadas da casa. Nöjd, um dos funcionários do Capitão, seria o suposto pai, mas como na época a ciência ainda não tinha os testes de DNA, não havia como provar quem, de fato, eram os pais das crianças que nasciam. Deste modo, só as mães é que poderiam saber. Assim, nessa pequena cena, Strindberg já vaticina a tragédia que espera pelo Capitão.

Ao longo da peça, nosso personagem vai se queixando da quantidade de mulheres em sua casa, e como lhe é custoso lidar com todas elas que, cada uma a sua maneira, querem conduzir a educação de Bertha, sua filha. A chegada do novo médico da família, que a princípio é uma esperança para o Capitão, acaba por se tornar uma decepção, já que Laura, sua esposa, trata de querer convencer o médico de que seu marido está padecendo e que este padecimento está comprometendo sua saúde mental. Os embates entre Laura e o Capitão vão se tornando mais tensos a partir daí, até que ela lança a semente da dúvida sobre a paternidade do marido. É neste momento que o Capitão abraça sua tragédia e afunda de vez numa espécie de delírio persecutório, do qual não parece haver saída. É o triunfo da esposa. Ela finalmente se vê livre do marido e poderá, agora, cuidar da educação da filha como bem entender.

Como se pode notar, a peça quase que retrata o momento pelo qual Strindberg estava passando. Suas dores em relação à sua esposa, a dúvida sobre a real paternidade dos seus filhos e seu enorme sentimento de impotência, causado por esses conflitos, aparecem sintetizados na personagem do Capitão. Esse aspecto nebuloso de sua vida, presente na peça, traz para a obra uma característica muito próxima das tragédias gregas, onde uma espécie de mal sobrenatural está prestes a acontecer. É a arte se mostrando como possibilidade de redenção do artista, ou mesmo como seu salva-vidas no turbilhão de seus conflitos humanos. É por esta razão, caro leitor, que a arte é tão importante. Para salvar-nos de nós mesmos.

Alex Ribeiro Lopes

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Yerma é uma peça em três atos, escrita em 1934 pelo poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca (1898-1936). Apresentada pela primeira vez já em 1934, Yerma faz parte da chamada “trilogia rural”, ou “trilogia dos dramas folclóricos”, do autor, que inclui também as obras “Bodas de Sangue” e “A Casa de Bernarda Alba”.

A peça é ambientada na Andaluzia e conta a história de Yerma, uma mulher que vive num mundo rural e fecundo, mas que ainda não conseguiu gerar uma vida em seu ventre. Ela é casada com João e sofre com o fato de o casal ainda não ter filhos. Yerma é uma das poucas mulheres casadas da vila que ainda não conheceu a maternidade. No entanto, João, apesar de ser um homem honesto e trabalhador, é indiferente à angústia de sua esposa, mantendo-a confinada num casamento sem amor, apenas como uma satisfação moral para a sociedade.

Enquanto isso, Yerma passa o tempo na janela, costurando o enxoval para o bebê de sua amiga Maria, ao mesmo tempo em que convive com Vítor, um amor do passado. Apesar da vigilância do marido e das duas cunhadas, que passam a morar na mesma casa que o casal, Yerma tenta, ao longo da narrativa, tudo o que pode para gerar uma vida, trilhando um caminho que a levará à tragédia.

A busca de Yerma pela maternidade é atravessada por coros de lavadeiras, de homens e de mulheres do povo, além de rituais de fertilidade. Desta forma, Lorca brilhantemente faz Yerma dialogar com as tragédias gregas, em especial aquelas escritas por Ésquilo e Sófocles. A diferença é que nas tragédias gregas dos dramaturgos citados o trágico vem de uma intervenção divina, como um castigo, enquanto que nas tragédias modernas, o trágico é algo intrínseco à alma humana.

Yerma é um belíssimo drama lírico, no qual Lorca aborda a questão da esterilidade de um casal, sob o ponto de vista feminino, desmascarando assim a opressão milenar que a sociedade patriarcal faz sobre as mulheres, em especial às estéreis, para cumprirem o “dever sagrado” da maternidade, quando sabemos que ser mãe é, ou pelo menos deveria ser, uma realização pessoal de cada mulher. E mais do que isso! Em Yerma, Lorca fala, de maneira poética e simbólica, da tragédia e da frustração de todos aqueles que não conseguem realizar seus sonhos, seja por medo do desconhecido, seja por ignorância ou, ainda, por causa das pressões sociais. Esta é uma das razões pelas quais Yerma tem-se eternizado nos palcos. Por colocar em cena uma angústia tão conhecida de todos nós, que é a dor de não termos conseguido realizar nossos sonhos e a frustração de termos que conviver com isto.

Em suma, caros leitores, Yerma é uma bela e tocante obra prima do teatro mundial, que vale muitíssimo a pena ser lida, assistida e encenada, para que não caiamos na esparrela de deixar nossos sonhos esquecidos numa gaveta qualquer da vida.

Leivison Silva Oliveira

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A Peça Didática de Baden-Baden Sobre o Acordo foi escrita por Bertot Brecht em 1929, e teve sua estreia no dia 28 de julho daquele ano. Esta foi uma das obras que o dramaturgo alemão dedicou às escolas, pretendendo alcançar um envolvimento ativo do público com o espetáculo. Além do sentido artístico da peça, Brecht também se preocupava com o teor didático da mesma. Desejava, com isso, fazer o público compreender e refletir, a partir da peça, sobre a realidade social e política na qual estavam inseridos. Nesta obra, Brecht coloca a reflexão sobre o progresso técnico e científico daqueles anos, questionando a relevância destes progressos dentro do desenvolvimento social. Ali se coloca como os avanços científicos estavam ultrapassando a importância do ser humano, que acabava sendo sacrificado em nome da ciência. E Brecht faz questão de ir a fundo, mesmo que de maneira sucinta, nas dores ali escondidas. O herói de guerra, na figura do aviador, que atravessara longas distâncias em grandíssimas alturas, é colocado num lugar de destaque, enquanto os mecânicos acidentados, que trabalharam para que ele conseguisse o feito, são condenados à morte, esquecidos no anonimato. De maneira sutil, Brecht nos mostra como são construídos os heróis, com respingos de sangue inocente.

A peça se inicia com um relatório sobre o voo do aviador. Após a queda do avião, o coro vai decidir se vai ajudar ou não os que se acidentaram. Neste momento, Brecht faz uma alegoria estarrecedora. Utiliza-se de três palhaços para demonstrar como a oferta de ajuda nada mais é do que uma má intenção. O palhaço Smith está em dificuldade e pede ajuda aos outros dois palhaços para lidar com suas dores. A ajuda recebida, vinda dos outros dois, só faz piorar a situação de Smith. Este fato se assemelha muito à ajuda que é dada pelas potências mundiais a algum país que dispõe de recursos que lhes interessam, leia-se petróleo. Criam uma guerra para “ajudar” aquele país a enfrentar seus problemas e só fazem piorar a situação.

Brecht, com o didatismo que a peça objetiva alcançar, mostra claramente como muitas vezes é perversa a ajuda oferecida para solucionar dificuldades pelas quais estão passando um determinado povo. Na peça, o coro decide por não ajudar. É o que ele chama de “O homem não ajuda o homem”. Após essa alegoria, a peça se encaminha para o final, numa crueldade nua. Os mecânicos que se acidentaram no voo têm de renunciar a si mesmos para, então, morrerem no esquecimento.

A peça não deixa o leitor/espectador desamparado pela aparente falta de uma ajuda que seja verdadeira, bem intencionada. Porém, propõe uma solução que não é nada passiva, mas que, ao contrário, exige esforços de todos. A única saída para Brecht é transformar o mundo. Mudar as condições e relações que se estabeleceram ao longo do tempo, e que mantêm o poder nas mãos de uns poucos, deixando a maioria abandonada à própria sorte. E se naquela época o mundo estava se transformando pelas primeiras ebulições tecnológicas, o homem deveria, nas palavras de Brecht, transformar o mundo transformado, para que pudesse dar a devida importância para si próprio. E hoje, o que nos é importante? Nós nos ajudamos? Ou, entulhados que estamos por tanta tecnologia, estaríamos ainda mais distantes de nós mesmos? Para buscar respostas, caro leitor, não vale pesquisar no Google.

Alex Ribeiro Lopes

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