Medida por Medida

Por Leivison Silva

Medida por Medida é uma peça em cinco atos, escrita entre 1603 e 1604, por William Shakespeare (1564-1616), o maior e mais influente dramaturgo do Ocidente. Encenada pela primeira vez em 1604, Medida por Medida só foi publicada em 1623. Alguns estudiosos garantem que a versão que temos hoje não é a original escrita por Shakespeare, mas sim uma versão revisada pelo também dramaturgo inglês Thomas Middleton (1580-1627) após a morte de Shakespeare. Ele teria feito algumas alterações no original como, por exemplo, deslocado o cenário da peça da Itália para Viena.

O Duque Vicêncio, de Viena, ao partir para uma viagem, nomeia Ângelo, um cidadão idôneo, para governar e cuidar da ordem na cidade durante sua ausência. O Duque parte sem fazer alarde, mas, na verdade, acaba se escondendo na paróquia local, disfarçado de monge. Com o poder nas mãos, Ângelo ressuscita leis punitivas para a luxúria, que já não eram mais usadas em Viena, e condena à pena de morte Cláudio, um jovem que engravidara sua amada, Julieta, antes do casamento. A irmã de Cláudio, Isabela, que é noviça em um convento, decide interceder pela liberdade de seu irmão. No entanto, Ângelo se mostra irredutível, a não ser que Isabela concorde em lhe dar sua virgindade em troca da liberdade de Cláudio. Indignada, Isabela vai até a prisão visitar Cláudio e lhe conta a proposta de Ângelo. Para sua sorte, o Duque, disfarçado de monge, estava na prisão preparando Cláudio para a morte e ouve toda a história. O Duque decide então ajudar Isabela.

Havia em Viena uma donzela chamada Mariana, a quem Ângelo havia prometido casamento, mas como o dote da moça se perdera no naufrágio que também matou seu irmão, Ângelo simplesmente ignorou o compromisso. O Duque, sabendo disto, diz para Isabela procurar Mariana. O plano do Duque era mandar Mariana, no lugar da Isabela, para se entregar a Ângelo, visto que haviam combinado, a conselho do Duque, que o encontro seria em silêncio e no escuro. Na manhã seguinte, descumprindo o trato que fizera com a noviça, Ângelo, depois de ficar com Mariana, mesmo achando que era Isabela, manda matar Cláudio e exige que lhe entreguem sua cabeça. O Duque interfere novamente e, com a ajuda do carcereiro, envia para Ângelo a cabeça de outro prisioneiro, parecido com Cláudio, que havia morrido recentemente, salvando assim a vida de Cláudio. Em seguida, o Duque envia uma carta para Ângelo, dizendo que iria voltar à Viena em breve e que queria que todos o fossem receber numa praça pública na entrada da cidade.

Na cerimônia de chegada do Duque, Isabela e Mariana desmascaram Ângelo. O Duque então determina que Ângelo se case com Mariana. O Duque revela todo seu plano para os presentes e que jamais se ausentara de Viena, tendo a oportunidade, inclusive, de ouvir alguns bajuladores seus, como o folgazão Lúcio, o difamarem em confissão. Dessa forma, os infratores são punidos e são salvos o casamento de Mariana, a vida de Cláudio e a honra de Isabela, que é pedida em casamento pelo Duque.

Em Medida por Medida, Shakespeare, com sua brilhante carpintaria dramática, cria uma atmosfera de intrigas e imoralidade nessa peça, abordando, de maneira genial, questões essencialmente humanas, como vida, morte, corrupção e os eternos dilemas éticos e morais da vida pública e privada. No entanto, a questão que mais se sobressai em Medida por Medida é a da imparcialidade da justiça, bem como os abusos de poder daqueles que, usando a máscara da conduta ilibada, cometem crimes ainda piores do que aqueles que deveriam julgar.

Uma peça atemporal, uma vez que ainda temos muitos Ângelos por aí, investidos de plena autoridade, mas que se corrompem e se esquecem de que devem respeitar e agir dentro dos limites da lei, pois podem (ao menos deveriam) ser julgados e punidos como um cidadão comum. Ao contrário! Sem o menor pudor, esses Ângelos se utilizam, ou não, das brechas da legislação sempre de acordo com a sua conveniência, seja para favorecer a si e aos seus aliados, ou para tirar os adversários do caminho.

Isso lhes soa familiar, caros leitores? Pois é. Mais de quatrocentos anos depois, qualquer semelhança com o sistema judiciário brasileiro, em que vemos claramente o uso de dois pesos e duas medidas, infelizmente não é mera coincidência.

Autor: Leivison Silva

Ator da Cia de Teatro Assisto Porque Gosto. Cantor lírico formado no Curso Básico de Canto Erudito da Escola de Música de Brasília, com realização de trabalhos no teatro, no cinema e na música. Iniciado na arte da palhaçaria – seu palhaço chama-se Josephyno.

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