O Nome da Rosa

O conhecimento como fonte de vida

 Eis um filme que causou muito impacto lá pelos meados da década de 1980, capitaneado pelo mega sucesso do livro homônimo, livro que foi lançado na Itália em 1980, de autoria do badalado mestre da semiótica, o escritor e filósofo Umberto Eco. Estamos falando do fascinante filme O NOME DA ROSA (135’), direção de Jean Jacques Annaud, EUA (1986). Um thriller? Sim. E o livro também, detetivesco. Mas vale lembrar. Em relação ao livro, estamos diante de uma narrativa de suspense bastante refinada, não só do ponto de vista linguístico, já que Umberto Eco derrama citações até em latim ao longo das quinhentas e sessenta páginas do livro, mas também na sua estrutura, que nos revela uma solidez literária inquestionável. Mas o roteiro do filme deixa para trás essa sofisticação e traz para a tela apenas o que é essencial para se criar os momentos de tensão e, de quebra, agoniar o espectador. Com isso, privilegia os ingredientes do suspense e da investigação para descobrir quem é o assassino, em série, de monges, num mosteiro beneditino do século XIV, ao norte da Itália. Umberto Eco aparece por inteiro nesta sua obra. Um intelectual investigativo da conduta humana, que especula e analisa, possibilitando, com isso, uma construção narrativa que dá sustentação filosófica a seu romance e, por tabela, ao filme, levando ambos, livro e filme, para além das fronteiras do macabro jogo de quem é quem nesse derramamento de tonéis de sangue, em plena Idade Média. O mais importante é que o filme herda do livro algo fundamental. A inteligência com que a trama de assassinatos é conduzida. Quando ainda estamos querendo entender um assassinato, já vem o próximo. E no dia seguinte, mais um morto… Ufa! Fôlego de Agatha Christie!

O monge franciscano William de Baskerville, (Sean Connery), acompanhado de seu ajudante e discípulo Adso de Melk (Christian Slater), chega ao mosteiro beneditino para participar de um conclave. Há rumores de heresias ocorrendo dentro do mosteiro. E William chega justamente no momento em que se iniciam os assassinatos dos monges. Através da janela, olhando o cemitério, William percebe a terra fresca de uma recente sepultura. Está dado o alerta. Era a primeira morte. E antes mesmo de desvendar o ocorrido, quando lhe são trazidas versões contraditórias para explicar como o monge despencara misteriosamente do alto de uma torre, outro assassinato acontece. Está dada a senha para que o inquieto monge franciscano tome a dianteira nas investigações, fazendo com que o filme entre em sua rota de tensão.

Eis a oportunidade para Umberto Eco, um apreciador das técnicas investigativas de Arthur Conan Doyle, impor-se como um hábil narrador de suspenses, nos moldes clássicos estabelecidos pelos grandes mestres desse tipo de literatura. Só que Umberto Eco é um escritor com uma musculatura literária robusta, um intelectual preocupado com seu tempo e com a história que moldou a realidade dos dias de hoje. E o filme, com seus cenários cuidadosamente desenhados, com sua atmosfera sufocante, com sua fotografia em cores cruas, com sua sensualidade latejante, navega à vontade por uma Idade Média onde os contornos sócio-econômicos, até então bem definidos dentro do sistema feudal, começavam a se esgarçar em direção a uma estrutura econômica mercantilista, impulsionada pelas intensas produções científicas e artísticas, pelo que viria a ser conhecido como o Renascimento. E William de Baskerville, com seu raciocínio afiado, exaustivamente lógico e bastante terreno, contrapõe-se à visão espiritual da igreja, onde o divino e o misterioso dominavam e assustavam os crentes em torno de seus mosteiros e igrejas.

E aqui chegamos ao ponto central do filme. Talvez, para o espectador, basta a curiosidade incontrolável de saber logo quem é o assassino. Compreende-se. Afinal, este é o objetivo do filme. Mas, se quiser, ele poderá espiar com mais atenção a enorme e famosa biblioteca do mosteiro, onde está armazenado um vasto conhecimento acumulado pelo Ocidente, desde os tempos ainda antes dos gregos. Eis o conhecimento, caro espectador, como fonte assustadora de poder! Não à toa, os livros que perpetuavam o conhecimento, dos quais a igreja era detentora feroz, estavam trancados a sete chaves naquela biblioteca, e quem ousasse se apossar deles, era assassinado.

E a reflexão poderá ir mais adiante e chegar aos tempos de hoje. O conhecimento, o domínio da tecnologia e os segredos das fórmulas continuam sendo a fonte máxima do poder, poder este agora, evidente, inserido no sistema capitalista de produção, cuja obsessão atávica é o lucro, portanto, o dinheiro, portanto, mais e mais poder.

E para finalizar, o espectador vai tomar conhecimento do livro assassino. É a segunda obra de Aristóteles, sobre a comédia. Quer-se dizer, sobre o riso! Foi a luta contra o riso, visto este como a arma mais eficaz para combater o obscurantismo e o domínio perverso da fé, a motivação dos assassinatos. A descoberta do assassino, e a consequente destruição da biblioteca, simbolizam o que já se prenunciava naquele ano de 1327. A igreja irá perder espaço para o poder laico, representado por uma nova camada social baseada no acúmulo de capital. Era a burguesia emergente, na figura inicial de ricos comerciantes, minando o poder da igreja e fortalecendo o Estado laico, mesmo que este Estado laico fosse, ao longo dos séculos, tão abusivo quanto o poder da Igreja.

O Nome da Rosa nos convida a vestir as lentes da história para entendermos a realidade que nos oprime e nos confunde. E a história ensina que o conhecimento, vilmente usado como fonte de poder, leva à luz. Por esta razão, ele não pode ser difundido. Tem que ficar nas mãos dos poucos.

 

                   Antônio Roberto Gerin

 

Vale muito a pena

(Disponível em DVD / YOUTUBE)

Resenha de filmes, às sextas-feiras, às 12h. Acompanhe!

Autor: Antônio Roberto Gerin

Autor de peças teatrais e diretor da Cia de Teatro Assisto Porque Gosto.

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