Publicado em Categorias Resenhas, Teatro

É aparentemente complicado falar de uma obra literária sem se deter em quem a escreveu. Falar do texto teatral O Pato Selvagem sem mencionar Ibsen? É consenso: conhecendo a vida do artista melhor apreenderemos a sua obra. E Henrik Ibsen é um exemplo desta simbiose entre criador e criatura. Sua obra está intimamente associada ao que ele pensava e como agia. Fez de sua arte um compêndio de pensamentos e atitudes que pudesse levá-lo a compreender melhor o mundo em que vivia. E transferia estas compreensões para as suas obras. Não à toa, Ibsen foi o grande dramaturgo do seu tempo e, ao morrer em 1906, deixaria um legado artístico imensurável. Alguns de seus textos, inclusive, vieram cercados de muita polêmica. Sua fala teatral mexia com a sociedade norueguesa, para Ibsen, atrasada e historicamente subserviente. Os embates foram tão fortes que Ibsen, voluntariamente, viria a se exilar na Itália, depois na Alemanha, em Munique, ficando dezessete anos longe do seu país. O Pato Selvagem, escrito em 1884, sob alguns aspectos, pode ser considerado a grande realização de Ibsen. Estão ali condensadas as suas principais virtudes como dramaturgo. Mais que isso. O Pato Selvagem resume a preocupação de Ibsen com as vulnerabilidades humanas – leia-se, mediocridades -, tão suscetíveis à tirania da mentira. E é sobre as mentiras e suas maldições que Ibsen gosta de escrever. Para ele, trilhar o caminho da verdade é a única forma de se estabelecer relações humanas saudáveis. Mas, uma vez construída a mentira, sair dela pode levar ao trágico. Ibsen nos alerta. Pensemos duas vezes antes de mentirmos, pois, uma vez criada a mentira, alguém se tornará vítima dela.

No contexto acima, podemos dizer que O Pato Selvagem, sob o ponto de vista de sua construção narrativa, gira em torno de uma mentira. É o punhal fincado no coração do modelo familiar burguês, modelo este que define a paternidade como uma atribuição intransferível. E se a paternidade for transferida? Bem. Problema sério, que precisará ser resolvido. Com uma mentira.

Hjalmar Ekdal é um fotógrafo, e está prestes a fazer uma grande descoberta, aliás, descoberta que ele exatamente não sabe bem o que é. Enfim, um gênio que a humanidade ainda não descobriu. É casado com Gina Ekdal, a mulher ideal para retroalimentar as ilusões do marido. Com ela tem uma filha, Hedvig, que se derrama de amores e admiração pelo pai. Mora também na casa o pai de Hjalmar, o velho Ekdal, antigo sócio de Werle, o industrial de usinas. Fora Werle quem arquitetara, no passado, as mentiras que levaria o velho Ekdal para a prisão. E, mais tarde, a mentira, aquela da paternidade, que causaria a tragédia irreparável. Tudo, pois, caminha em pleno equilíbrio, o cotidiano se sustenta nos disfarces, com aparências saudáveis, até que Gregers Werle, o filho do industrial Werle – aquele! -, desce lá de cima das usinas, onde esteve isolado por anos e vem fazer o quê? Dizer as verdades.

Uma das questões que se coloca em relação ao papel da literatura, o teatro em específico, é a de como sangrar as verdades sem que elas assustem o leitor – e o espectador. Enfim, a sociedade. Sem que se transforme num compêndio de denúncias. Talvez seja este um dos dilemas do realismo, escola literária do século XIX, na qual Ibsen atuou como grande mestre. E acreditamos que este deva ter sido também o dilema do Ibsen realista. Afinal, o que se ganha com o revelar a verdade? Como fazer prevalecer a verdade se o homem tem na mentira seu álibi moral? Sendo assim, até onde não seria melhor viver na mentira, que traz a paz aparente, do que insistir na verdade, que traz o peso insuportável da responsabilidade?

Enfim, a verdade, segundo Ibsen, ressurge da mentira desmascarada. Eis o grande teatro! Mas há o risco. Desmascarando uma mentira, poderemos encontrar outra, na camada inferior. E mais outra. Neste caso, melhor pararmos por aqui e ficarmos com as mentiras mesmo. Afinal, fazer prevalecer a verdade exige muita luta. E muita coragem. O teatro, enclausurado, fará isto por nós. Brandirá as verdades que não vamos ouvir. Ademais, enquanto o teatro não vier para as ruas, estará tudo bem. E se ele vier, a gente chama a polícia e o enclausura novamente. Ou expulsa. Como fizeram com Ibsen, obrigando-o a se submeter ao auto-exílio. Ibsen é a prova de que a verdade não tem lugar neste mundo. No máximo – e olha lá! -, nas salas de teatro.

Antônio Roberto Gerin

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Uma viagem onírica pelo universo de Kurosawa

Sonhos (120’), Japão/EUA (1990), é um filme dirigido pelo mestre do cinema japonês Akira Kurosawa (1910-1998), um dos diretores mais importantes da história do cinema mundial. Com um roteiro baseado em sonhos que o próprio Kurosawa teve em diferentes momentos de sua vida, Sonhos foi financiado por Steven Spielberg, George Lucas, Francis Ford Coppola e Martin Scorsese, admiradores do grande cineasta japonês.

O filme é composto por oito episódios oníricos independentes, mas que dialogam entre si. São eles: “Um Raio de Sol Através da Chuva”, um menino que desobedece a mãe e vai para a floresta, onde assiste, escondido, à cerimônia de casamento das raposas, mas é descoberto por elas e deve arcar com as consequências; “O Jardim dos Pessegueiros”, durante o Festival das Bonecas, os espíritos das árvores devastadas aparecem para um menino e culpam a família do garoto por ter cortado todos os pessegueiros do jardim; “A Nevasca”, um grupo de montanhistas é surpreendido por uma nevasca, sucumbindo um a um, até que o último sobrevivente é atraído por uma Yuki-onna – espírito da neve do folclore japonês; “O Túnel”, um comandante, retornando da Segunda Guerra Mundial, atravessa um túnel e se depara com os espíritos dos soldados de seu batalhão, mortos em combate; “Corvos”, um estudante de artes visuais passeia pelas pinturas de Vincent van Gogh (1853-1890), interpretado no filme pelo diretor Martin Scorsese; “Monte Fuji em Vermelho”, a erupção da mais famosa montanha japonesa causa a explosão de usinas nucleares e apenas cinco pessoas sobrevivem; “O Demônio que Chora”, um mundo pós-holocausto nuclear habitado por demônios de diferentes castas; e “A Aldeia dos Moinhos D’Água”, um turista visitando um vilarejo, onde encontra um velho habitante local que fala do respeito que o homem deve ter pela natureza, e onde também presencia um alegre e colorido cortejo fúnebre.

Kurosawa está presente em cada sonho, sendo representado no filme por uma espécie de alter ego. Nas duas primeiras histórias, vemos um Kurosawa criança, interpretado por Toshihiko Nakano no primeiro sonho e por Mitsunori Isaki no segundo. Do terceiro em diante, o Kurosawa adulto é interpretado por Akira Terao.

Com poucos diálogos e focando bastante no visual, Sonhos é repleto de referências e arquétipos da cultura japonesa. O que vemos na tela é um desfile de imagens belíssimas, apoiado numa fotografia de encher os olhos, além de figurinos, maquiagem e coreografias impecáveis, tudo isso ao som de uma envolvente trilha sonora.

Cada sonho, sendo que alguns deles mais parecem pesadelos, vem recheado de símbolos e todos eles, em maior ou menor grau, é perpassado por uma mesma temática: o cuidado e o respeito que o homem deveria ter com a natureza que o sustenta. Servir-se dela sem agredi-la, e usar sua inteligência não para destruir, mas sim para trazer mais beleza e bem estar ao mundo. Uma reflexão bastante pertinente para esse começo de século. Concorda, caro leitor?

Sonhos é uma obra-prima do cinema. Poética e contemplativa, que hipnotiza, encanta e leva à reflexão. Indispensável na coleção de qualquer amante da sétima arte.

Leivison Silva

 

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Houve um tempo
Em que o coração
Deste poeta
Deu as costas
Para o amor

Triste, solitário
O coração machucado
Fechou suas portas
Para o mundo

Mas
Um beijo
Foi o bastante

Quando meus olhos
Se fecharam
E meus lábios
Tocaram os teus lábios

A rosa do amor
Em meio ao clima gélido
Que habitava meu coração
Ascendeu novamente

Um sorriso
Preencheu meu ser
E quando me dei conta
Ali estava ela
Minha amada
Razão da minha poesia.