Toda Nudez Será Castigada

Por Alex Ribeiro

Toda Nudez Será Castigada é uma peça de Nelson Rodrigues escrita em 1965. Naquele mesmo ano, o diretor Ziembinski dirigiria a montagem de estreia da peça, no Rio de Janeiro, atingindo grande sucesso. Ziembinski, que em 1943 havia também dirigido a aclamada peça Vestido de Noiva, parecia ser o nome certo para trazer o Nelson Rodrigues das páginas da dramaturgia para a vida no palco. E o fez brilhantemente. Outra montagem aclamada foi capitaneada por Antunes Filho, em São Paulo, no ano de 1981. Apenas seis meses após o falecimento de Nelson, a montagem brincava ao mesclar elementos de outras peças do dramaturgo brasileiro. Era o início do Centro de Pesquisa Teatral do SESC-SP, que viria a se tornar uma referência do fazer teatral no Brasil, e, com isso, a dramaturgia de Nelson Rodrigues não poderia ficar de fora. Toda Nudez Será Castigada passa a compor o invejável quadro de Tragédias Rodrigueanas, cuja  capacidade de desenhar os tipos cariocas e escancarar as relações deterioradas pelos conflitos é impressionante. O sexo como motor pulsante de vida se choca a todo momento com a repressão do luto e de uma moral sustentada por pilares imaginários. Uma atmosfera sufocante toma conta das personagens e, consequentemente, do público. Mas, desta vez, Nelson Rodrigues não alivia. Não traz aquele humor absurdo a que se acostumaram seus espectadores. Está mais cru. Os conflitos estão todos nus. E toda nudez será castigada.

Herculano é um homem que acabara de enviuvar. Sua esposa fora vítima de um câncer no seio, morrendo precocemente. Herculano, imerso no luto, vive numa espécie de melancolia. Essa situação é agravada pela promessa que fizera a seu filho, Serginho, de não se envolver com mulher nenhuma. Patrício, irmão de Herculano, nutre um ódio ferrenho por este. Quer, a qualquer custo, destruir o irmão e tenta fazer com que ele sucumba aos desejos. É nesse momento que ele coloca frente à frente o agora casto Herculano e sua amiga prostituta Geni. Por mais que Herculano lute para preservar sua moral e a casta viuvez, não consegue resistir à sensualidade e beleza de Geni.

A castração e todo conflito interno de Herculano chegam a uma tensão insuportável quando Serginho descobre que o pai está se encontrando com Geni. Exige ele, Serginho, que o pai permaneça fiel à esposa morta. E, não sendo Herculano capaz de se afastar definitivamente de Geni, o filho declara guerra ao pai. Nesse contexto, é importante notar que as três tias de Herculano e Patrício vivem a controlar a vida sexual dos três homens da família, mas, é apenas com Serginho que a influência delas se dá por completo. Herculano, na ânsia de retomar o carinho do filho, passa a agredir Geni, enquanto tenta se reconciliar com as tias. Para, enfim, ter um pouco de paz. O motor de tensão continua a girar cada vez mais rápido. E entre agressões, sumiços e noites seguidas de prazer imenso, Herculano pede Geni em casamento.

Serginho, que fica a par de tudo, inclusive sendo testemunha da nudez do pai com Geni, fica transtornado. Vai ao bar, bebe, briga e é preso. Na prisão, é estuprado por ladrão boliviano. Herculano, ao saber, pensa ser um castigo à sua vida sexual com Geni. Pede ajuda ao médico, ao padre, ao delegado, mas todos são incapazes de qualquer ação que venha, de fato, a ajudá-lo. Parece o fim da relação pai e filho, já que Serginho atribui ao pai a responsabilidade pelo que lhe aconteceu. Eis que surge mais uma vez Patrício e convence Serginho a perdoar o pai, mas com a condição de que ele, o filho, se torne amante de Geni. Serginho acata a ideia do tio, e exige que o pai se case com Geni para ter o perdão que deseja. Também convence as tias a concordarem com o casamento. Elas passam a aceitar Geni e a criar para ela uma nova imagem. “Casou-se virgem a Geni, é honestíssima”. Tudo isso para que, no momento certo, Serginho chamasse o pai de cabrão. Mas antes disso, Serginho foge com o tal boliviano. E, abandonada pelo amante, Geni também vai embora. Herculano fica só.

Nelson Rodrigues traz no núcleo da família de Herculano todo o conflito que se estabelece entre a moral e os bons costumes do povo brasileiro daquela época. E dos dias de hoje também. Não é possível ser gente de bem e manter uma vida sexual liberta. É preciso abolir o sexo. O prazer deve ser evitado. Esse conflito se torna aterrorizante na imagem das velhas tias a manipular o jovem Serginho. Mas, mesmo elas, as puritanas, fazem questão de dar banho no rapaz, o único homem que lhes sobrara. E nessa perseguição, elas vasculham as cuecas dos homens da casa em busca de sinais de sexo. Se houver, é preciso que se castigue. Herculano parece fraco demais para renunciar a um dos dois lados. Ao mesmo tempo que se vê vivo nos braços de Geni, quer se encerrar no túmulo com sua mulher para agradar à família. De todos os personagens, Geni parece ser a mais livre. Não se apega a nada e a ninguém. Quer apenas ser amada e dar toda vazão ao seu desejo. Não tem vergonha e nem esconde quem é. Essa liberdade não se encontra nem mesmo em Patrício, que está preso no ódio ao irmão.

Se Freud tivesse contato com as obras rodrigueanas, com certeza elas lhe serviriam de material para suas análises e para a composição teórica da psicanálise. Assim pensamos nós, que olhamos para a peça e vemos um nítido conflito entre a liberdade, através do prazer, e o controle doentio exercido por uma moral frágil e distorcida. Mas, psicanálises à parte, podemos ver em Toda Nudez Será Castigada uma luta pela liberdade, castrada brutalmente. Não podemos esquecer que aquele era o primeiro ano do golpe militar de 1964, no Brasil. Castrar era um lema. Portanto, o que significava liberdade naqueles anos? O que significava prazer? Vindo alguns capítulos adiante na história tupiniquim, o que significa liberdade hoje? Parece-nos que o povo brasileiro é um tipo de Herculano que sabe muito bem o que quer, mas que dá ouvidos a umas tias velhas que nada mais querem do que o controle total da situação. Nossas tias já sabemos quem são. Estão lá, empossadas nos altos cargos do poder público. E a Geni? Quem será nossa Geni?

Autor: Alex Ribeiro

Ator da Cia de Teatro Assisto Porque Gosto, psicólogo, poeta.

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