Viúva, porém honesta

Viúva, porém honesta é uma peça escrita em 1957, por Nelson Rodrigues (1912-1980), e foi definida pelo próprio autor como uma “farsa irresponsável em três atos”. Ela está classificada no grupo das chamadas “peças psicológicas” do dramaturgo. Segundo estudiosos da vida e da obra de Nelson Rodrigues, Viúva, porém honesta foi escrita como uma resposta do dramaturgo às duras críticas que recebeu por sua peça anterior, Perdoa-me por me traíres. A primeira montagem de Viúva, porém honesta aconteceu no ano de sua escrita, no Teatro São Jorge, no Rio de Janeiro, e tinha no elenco o ator Jece Valadão (1930-2006), cunhado de Nelson à época.

A peça gira em torno de Ivonete, uma adolescente que ficara viúva recentemente e desde então se recusava a sentar-se, como prova de sua fidelidade ao marido morto, Dorothy Dalton, um ex-delinquente juvenil fugitivo do SAM, Sistema de Assistência a Menores, que fora transformado em crítico teatral. Antes uma esposa declaradamente adúltera, Ivonete acredita que só um marido morto merece fidelidade. O pai de Ivonete, o inescrupuloso doutor J.B. de Albuquerque Guimarães, é diretor do maior jornal do Brasil, “A Marreta”. Por causa de um diagnóstico equivocado do médico da família, que havia dito que Ivonete estava grávida, o doutor J.B. casou sua filha às pressas com Dorothy Dalton, mesmo sabendo que Dorothy Dalton era homossexual. No entanto, pouco tempo depois do casamento, Dorothy Dalton foi atropelado por um carrinho de picolé Chicabom e morreu. Desesperado com a postura irredutível de Ivonete, o doutor J.B. pede ajuda a alguns especialistas do sexo para convencerem sua filha viúva a retomar sua vida. São eles: Madame Cri-Cri, uma ex-cocote, doutor Lupicínio, um psicanalista, e doutor Sanatório, um otorrino. No entanto, nenhum deles consegue uma solução satisfatória para a problemática. Quem acaba por resolver esse impasse é o divertido Diabo da Fonseca, que ressuscita Dorothy Dalton, tirando assim Ivonete de sua viuvez.

Em Viúva, porém honesta, Nelson Rodrigues é bastante assertivo ao fazer graça com a instituição casamento, com o charlatanismo de certos “profissionais” e ao questionar as convenções sociais e a hipocrisia de alguns setores da sociedade, além de alfinetar, com muito bom humor, a imprensa, em especial a crítica teatral. Nelson constrói em Viúva, porém honesta um texto irreverente, bufão, permeado pelo sarcasmo e repleto de personagens carismáticos e extravagantes. Outro ponto que chama a atenção é a brincadeira que Nelson faz com o tempo, inserindo flashbacks que são literalmente encenados durante a ação, e nos quais todos os personagens dão seus pitacos.

Passados mais de sessenta anos de sua estreia, Viúva, porém honesta continua espantosamente atual. Ainda temos o sexo como um tabu, somos obrigados a conviver com o jornalismo sensacionalista e com a hipocrisia do politicamente correto se infiltrando em todos os setores da sociedade para proteger a moral da chamada “família tradicional brasileira”. De qualquer forma, fica aqui essa deliciosa sugestão de leitura, que o nosso querido anjo pornográfico deixou de herança para a nação brasileira. Detalhe, caros leitores! Qualquer semelhança com o Brasil de 2018 não é mera coincidência.

Leivison Silva Oliveira

Resenha de teatro às segundas, resenha de filmes às sextas, sempre às 12h. Acompanhe!

Autor: Leivison Silva

Ator da Cia de Teatro Assisto Porque Gosto. Cantor lírico formado no Curso Básico de Canto Erudito da Escola de Música de Brasília, com realização de trabalhos no teatro, no cinema e na música. Iniciado na arte da palhaçaria – seu palhaço chama-se Josephyno.

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