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Holocausto, um olhar cotidiano

Por Antônio Roberto Gerin

PARAÍSO (135’), com direção de Andrei Conchalovsk, Rússia/Alemanha (2016), em cartaz nos cinemas, é mais um filme sobre a perseguição aos judeus na Alemanha nazista. Quem gosta deste tema, sempre trágico, pode ir logo reservando o ingresso, porque vale a pena assistir. Para quem não aprecia, fica aí a sugestão de ver um filme sobre tema recorrente, mas mostrado a partir de um ângulo revelador. E a diferença desta história de holocausto para outras tantas é que ela é mostrada por dentro da tragédia, é dada a oportunidade aos personagens chaves trazerem suas angústias, suas convicções ideológicas e manifestar suas fraquezas e mesquinharias, como se estas atitudes fossem ações corriqueiras, o que nos leva a ver as barbáries do nazismo em pesos e medidas diferentes. Ironicamente, é como se disséssemos que há tempo para se viver naquele campo de concentração.

Neste caso, são os mesmos ingredientes de tantos outros filmes sobre a mesma temática. O campo de concentração, a câmara de gás, o preso que vai trabalhar na casa do oficial chefão, não há, no entanto, o trem chegando abarrotado de judeus, mas há a menção ao trem, e a imagem, verbal, é feita de uma forma tão arrebatadora que não tem como não imaginar um trem abarrotado de judeus entrando naquele campo de concentração. A dor constrói a magia da imagem, numa pungência que nos abala e nos emociona.

O filme narra a trajetória de três personagens que acabam se encontrando em momentos tensos da guerra, cujo cenário é a ocupação francesa, quando o canhão e a política se locupletam, para o desespero e a vergonha de muitos franceses. E traz um elemento forte, que é a corrupção, tanto por parte dos militares nazistas quanto de seus prisioneiros judeus. Pasmem, os judeus, nos campos de concentração, enquanto não iam para as câmaras de gás, continuavam sendo seres humanos! E isto num lugar onde a insanidade ideológica toma conta, o jogo moral e o jogo social passam a não ter regras, e rouba mais quem tem menos escrúpulos. Nada segue impune, nem mesmo a personagem chave, uma princesa russa, que faz de tudo para salvar duas crianças judias e, por isso, é condenada. Aí talvez esteja a grande crueldade do filme. E seu aspecto original. O tão sonhado paraíso é visto a partir do inferno.

Em suma. Os filmes sobre o tema geralmente mostram só o inferno, e o inferno, neste filme, é o paraíso perdido. A princesa russa, por necessidade de sobrevivência, vende sua moral no varejo, mas se recusa a vender a sua ética, e quando percebe que sua ética não cabe neste mundo, prefere morrer. E esta é a oportunidade de assistir ao filme. Para aprendermos que paraíso e inferno, se existem, somos nós que os criamos.

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