Publicado em Categorias Cultura, Literatura, Poesia

Por Jackson Melo

Todo dia ela passa
Do outro lado da rua
Alegre e distraída

Às vezes apressada
Tentando compensar o atraso
Mas sempre passa

Eu fico sempre a observar
Com um sorriso no rosto
E um bater forte do coração

Tem dias em que a forte brisa
Me presenteia
Com um  sorriso do teu perfume

Será que um dia eu tomo coragem
E atravesso a rua
Pra poder me declarar?

E quem sabe eu ganho um beijo
Da bela moça
Que do outro lado da rua
Insiste em passar.

Publicado em Categorias Cultura, Literatura, Resenhas, Teatro

Por Alex Ribeiro

As Rãs é uma comédia do dramaturgo grego Aristófanes, escrita por volta de 405 a.C. Com uma criação produtiva, ele chegou ao número de 40 peças, porém, destas, só 11 resistiram ao tempo, chegando até os dias de hoje com reedições por todo o mundo. Pouco se sabe sobre a vida do autor, mas no período em que viveu houve grandes acontecimentos em Atenas, sua cidade-estado, e sua obra não poderia passar imune a esses acontecimentos. Com a recente morte do tragedista Eurípedes, Aristófanes, através de As Rãs, nos ajuda a situarmos a dramaturgia e a história daquele tempo, colocando tanto Eurípedes quanto Ésquilo, também falecido, no motor dramático da peça.

O deus Dioniso e seu escravo Xantias são os personagens principais de As Rãs. Os dois resolvem descer até o tártaro de Hades para trazer de volta à vida um dentre dois dos grandes tragedistas gregos que já haviam morrido, Ésquilo e Eurípedes. Nessa trajetória, as duas personagens, Dioniso e Xantias, cometem trapalhadas e revelam o ridículo, muitas vezes cotidiano, que se assemelham aos apresentados em inúmeras comédias a que assistimos hoje no cinema e no teatro. Os dois vão-nos mostrando que, desde o início do teatro ocidental, a empatia com os deslizes que cometemos em segredo é instrumento de riso usado pelos comediantes. Além disso, Dioniso e Xantias tecem inúmeras críticas aos dois tragedistas que foram resgatar, sem poupar, também, os costumes da época, as tradições religiosas e o próprio público. É uma crítica bem humorada de tudo o que acontecia naqueles anos, em Atenas.

Há, porém, algo muito significativo nas comédias gregas, sobretudo deste período em que As Rãs foi escrita. O que hoje chamamos de politicamente correto, e que muitas vezes irrita certos comediantes do nosso Brasil atual, naquele tempo não existia. Por quê? Não seria preciso. O público alvo das comédias, os personagens satirizados eram figuras notórias, como políticos poderosos, filósofos, os próprios deuses e até mesmo os grandes dramaturgos. Não se utilizava das fragilidades humanas para tirar o riso. As minorias, que naquele tempo eram quase todas as pessoas, com exceção dos homens ricos, não eram alvo de chacota.

Fazer comédia hoje, à luz da sua origem grega, desperta o questionamento sobre qual tipo de humor se pretende criar. Um humor corajoso, que não tem medo de criticar aqueles que exercem poder ou ocupam lugar de destaque, ou um humor mais cômodo (leia-se covarde), que é aquele que faz chacota com quem tem a voz sufocada pelas misérias e mazelas sociais a que estão submetidas? Portanto, caro leitor, poderíamos mudar Politicamente Correto para Originalmente Correto? Parece-nos mais agradável. E didático.

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Por Antônio Roberto Gerin

FAROESTE CABOCO, direção de René Sampaio, Brasil/2013, é um filme, como o próprio título revela, baseado na música homônima de Legião Urbana. E este é o primeiro motivo para se elogiar a proposta de produção do filme. É sempre um risco fazer um filme baseado em literatura clássica, e mais desafiador ainda é fazê-lo baseado na narrativa de uma música tão icônica para a nossa cultura, em particular para a cultura musical brasiliense. Não tem como não fazer as inevitáveis comparações. E pode-se afirmar que o filme resiste a elas.

Óbvio que quando se ouve Renato Russo expressar o encanto de João de Santo Cristo, bestificado ao chegar à Brasília, vindo de Salvador, quando ele sai da rodoviária e vê as luzes de natal e Renato canta “Meu Deus que cidade liiindaa!”, esperamos que o filme reproduza as mesmas sensações de encanto transmitidas pela interpretação de Renato Russo. A passividade do personagem João de Santo Cristo (o competente Fabrício Boliveira) olhando as luzes de natal pela janela do ônibus nos frustra, mas isto é apenas uma exigência de quem já está impregnado da sublime interpretação de Renato Russo.

O roteiro adaptado merece bons aplausos. Renato Russo, ao compor a narrativa, evidente não tinha a preocupação de compor um roteiro cinematográfico, tampouco construir uma narrativa pura do ponto de vista formal. Portanto, os roteiristas tiveram que se virar nos trinta para alinhavar uma história com um peso dramático que se encaixasse na linguagem cinematográfica. Em alguns momentos peca-se pela falta de um maior rigor narrativo, mas nada que comprometa o ritmo e a beleza do filme, cujo ponto alto é o momento do duelo.

Impossível não se lembrar dos inúmeros duelos a que já assistimos, mais precisamente o belo e demorado duelo (8min30s) de Era uma Vez no Oeste (1968), de Sérgio Leone. O duelo caboclo é mais enxuto, sem precisar recorrer a flashbacks para aumentar a tensão dramática. É rápido, objetivo e a estruturação do desfecho é crucial para o sucesso da cena, quando o covarde Jeremias (Felipe Abib) se aproveita da distração de João do Santo Cristo com a chegada de Maria Lúcia (Ísis Valverde) para ganhar o duelo.

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